Talvez eu tenha vivido tudo o que
um ser humano tem para viver. Ou talvez eu não tenha vivido absolutamente nada.
Acho, na verdade, que só o tempo
vai dizer. Só minhas ações futuras vão dizer.
Mas tempo? Quem sou eu para falar
dele? Quem sou eu para um dia ousar reclamar dele ou para, como fiz agora,
tentar jogar nas suas costas a responsabilidade pelo meu destino e pela minha
história? Tempo talvez seja a única coisa de que não posso reclamar. E é, sim,
a única coisa que não posso responsabilizar (ou creditar) pelos meus fracassos (ou
sucessos).
Digo tudo isso porque, com 43
anos, não se pode reclamar do tempo. Tempo, durante a vida, eu já tive de
sobra. Talvez eu ainda não tenha alcançado a metade da minha vida, ou talvez
sim, mas hoje, com 43 anos, realmente não sei dizer se fiz bom uso do tempo ou
não.
Independentemente de tudo isso, a
verdade é que há poucos meses uma nova fase na minha vida se iniciou. Se tempo
é um dos elementos de que não posso reclamar, apoio familiar é outro. E chances
são outro.
Vou ser o mais sincero possível e
relatar que a minha iniciação nesse mundo obscuro se deveu, sim, à influência
de amigos, naquele fatídico dia, quatro anos atrás. É claro que cada um faz o
que quer e não faz o que não deseja, mas a pressão foi muito forte e considero
que não tive como fugir. Pode ser estranho que somente aos 39 anos alguém
conheça e se encante por uma droga, depois de uma vida toda regrada, assim
digamos, mas não vai soar nada estranho se eu lhes disser que festas, curtição
e más influências – amigos que parecem ser amigos mas que, quando lhes convém,
não se tornam um bom significado dessa palavra – não têm tempo definido para
aparecer, para acontecer, para lhe fazer companhia. E foi assim comigo.
Simplesmente me deixei levar, e, em pouco tempo, a maconha me tomou conta.
Não, minha ex-esposa não é a
culpada, mas a verdade é que nossa conflituosa separação me atormentou, me
desesperou – me consumiu. E, diante do afastamento que houve entre mim e meus
dois filhos – preferiram ficar com a mãe, e eu não quis discutir, nem entrar na
Justiça –, uma nova vida regada a festas, algazarras e farras acabou-me sendo a
saída, a minha válvula de escape. Num primeiro momento, achei diversão onde
parecia haver diversão. Depois, achei decepção e arrependimento onde pensei que
continuaria a achar diversão.
Até penso que não faz sentido
descrever, aqui, a maneira abrupta, irreparável, irrefreável e incontrolável
com que a minha vida decaiu. Vocês devem imaginar. Embora, mesmo distantes,
minha ex-esposa, meus filhos e meus pais tivessem tentado por diversas vezes me
ajudar, fui do céu ao inferno num piscar de olhos. E quando meus olhos se
abriram por completo depois desse breve piscar, já era tarde demais para eu
achar tempo de fechá-los por longos minutos, sonhar com dias melhores e acordar
numa outra realidade. Não haveria outra realidade – pelo menos não naquele
momento.
Hoje, depois de tudo o que passei
– tudo o que vocês podem imaginar –, cá estou, sozinho, nessa clínica de
reabilitação. Confesso que a vida tem sido difícil aqui. Tudo transcorre muito
devagar, parece que as coisas não evoluem, e o tempo, algo que tive em excesso
mas que passou rapidamente na minha vida, agora parece ser um inimigo, um
desafeto, simplesmente porque estou correndo contra ele e, nessa ação
desesperadora, ele só tem me mostrado que quanto mais passa, quanto mais rápido
ele decide ser, mais difícil se torna a minha situação, mais angustiante e
sufocante ela fica – nada tem dado certo. Tempo e chances eu já tive de sobra
na minha vida. Em boa parte dela, os aproveitei, mas hoje faço mau uso. E, já
que estou sem forças, o que me resta, infelizmente, é mais uma vez esperar o
tempo passar e eu contar com a ajuda dele – cá estou de novo, jogando a
responsabilidade sobre suas costas. Não custa eu tentar, mais uma vez, que ele
contribua comigo. Depois que perdi família e amigos, meu único amigo ou meu
único inimigo só poderá ser mesmo o tempo.
Agora, me resta me tornar um
aliado dele – ou permitir que passe por cima de mim e me destrua como ser
humano. Não tenho outras alternativas, tudo já se esgotou. Apenas o passar dos
meses, ou dos anos, vai me dizer se usei o tempo a favor de minha existência ou
se o utilizei como uma maneira de abreviar minha passagem por esse mundo e de
me esconder – como um covarde – das várias realidades que sempre me cercaram.

