Confesso que chorei. Não sei
quanto tempo após meu último choro, mas chorei. E com orgulho, pois foi algo
que aconteceu a partir de uma emoção que começou a despertar – e não a partir
de algo que eu tivesse feito e, após, me arrependido. O motivo do choro?
Repentinamente, me lembrei de meu avô materno, Irineu, que partiu em julho de
1995, vítima de um acidente de carro, quando eu tinha apenas seis anos de
idade.
O “confesso” da frase inicial não
quer, de maneira nenhuma, significar algo do tipo “ah, muito a contragosto, sou
obrigado a admitir que chorei”. Não. Ver-se obrigado a admitir que chorou é a
pior forma possível de mostrar-se um cabeça-dura, e isso eu não sou. Sei que
sou chato, que guardo sentimentos que na verdade deveria compartilhar com
outras pessoas, sei que sou fechado, mas sei admitir minhas fraquezas.
Sabe, o choro ocorreu na
madrugada de 31 de dezembro de 2009. Por eu ser novo à época em que meu avô
partiu, não pude viver muitos momentos ao seu lado. Em função disso, vieram-me
à cabeça umas poucas situações; a mais marcante que tenho é que ele me erguia
até eu encostar a cabeça no teto; após, me puxava de volta e, em seguida, ia
repetindo as duas ações. E como eu gostava daquela brincadeira, talvez uma das
mais simples do mundo.
E chorei não por ir me lembrando dessas
situações, mas, sim, porque me veio um desejo imediato de ter mais lembranças a
respeito de meu avô. E eu não tenho, e queria, de uma hora para outra, ter.
Queria possuir mais situações das quais pudesse me lembrar, mais lembranças a
respeito dele. Mas, digo novamente, eu não as tenho, e tal falta impulsionou um
enorme vazio, que constatei ser uma das maiores lamentações de minha vida, e que
deverá sê-lo até o fim dela.
Meu avô era uma grande pessoa,
mas era um pouco conservador, um legítimo pai à moda antiga. Era seu jeitão, e
era dessa forma que conquistava a admiração e o respeito de todos. Quando
chorei, fui ao quarto de meus pais para fazer uma pergunta a respeito dele;
tendo obtido a resposta, fiz menção de retornar ao meu quarto, fingir a meus
pais que eu estava bem e voltar a dormir.
Obviamente, eu não estava, e
minha mãe percebeu isso e me chamou para sentar na cama deles e conversar.
Falamos a respeito daquela época toda, e fiquei sabendo de algo que, ao mesmo
tempo, me abalou, me orgulhou imensamente e, principalmente, aumentou meu vazio
e minha lamentação: aquele homem, sério, fechado, conservador, começou a se
soltar e a se abrir mais à sua família após meu nascimento, após começar a brincar
com o pequenino Murian.
EU fui o responsável por isso. EU
fui o responsável por transformar aquele ser humano amado e respeitado. EU,
então um ser pequeno, novato, durante muito tempo recém-chegado à família,
assumi, mesmo não tendo muita noção das coisas, uma função da qual me
orgulharei para o resto de minha vida. Apesar da saudade, apesar de o tempo não
voltar, apesar da tristeza por eu não possuir muitas lembranças e desejar ter
mais, fiquei sabendo de algo que me conforta e que me enche de realização.
Com tudo isso, eu penso ter uma
função a cumprir por aqui, e buscarei fazer de tudo para que meu avô, que com
certeza me olha lá de cima, e as outras pessoas ao meu redor tenham motivos
para sentir o mesmo orgulho que eu sinto.
| Meu avô Irineu com minha avó Anayr, que sempre foi muito persistente, característica que se intensificou após a perda |