terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Os jogadores não sabem o que é ser torcedor

Sabe quando você caminha pela rua, tranquilamente, sendo capaz de perceber tudo o que está acontecendo ao seu redor, e de repente depara com uma pracinha em que dois garotos de pouca idade estão jogando futebol? Geralmente os dois querem ser os atacantes, querem ser os matadores, querem ser o autor do gol, querem correr para a torcida como o herói aclamado, assim como veem seus ídolos fazerem no estádio…


Mas, bom, em casos assim, diante do fato de haver apenas os dois ali jogando, ambos concordam que terão de se alternar nas posições: um chuta e o outro defende – mesmo que este sempre queira ser o atacante. Sendo os dois gremistas, certamente ocorria, nos últimos tempos, de um deles gritar “Jooonas! Do Grêêêmio!” quando fazia o gol e o outro gritar “Viiictor!” quando defendia.

Quando eles trocavam as funções, alternava-se entre esses dois jogadores o nome gritado, mas, como os dois garotos gostariam de ser o atacante, a felicidade e o êxtase eram maiores ao gritar “Jooonas!” depois de a bola sair do pequeno pé do garoto e se tornar indefensável para o amigo. Aquele grito de “Jooonas!” carregava, em cada letra proferida pelo garoto, a admiração por um jogador que até então havia honrado a camiseta do time e se tornado goleador nele, num abastecimento recíproco de afeto entre clube – e nisso inclui-se a torcida – e jogador.

Nenhum dos dois garotos, tendo tão pouca idade, deverá entender hoje o que acaba de ocorrer – a saída repentina de Jonas. Para eles, Jonas apenas não vestirá mais o uniforme tricolor e continuará a fazer seus gols em outro lugar, por outro clube.

Eu não sou nenhum torcedor fanático do Grêmio, tampouco faço esforços desmedidos, loucos, mas, como qualquer torcedor, e seja este fanático ou não, lamento e me desaponto muito ao ver meu time ser enfraquecido a cada nova bomba que estoura no Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, e se espalha pelo Brasil – tudo isso prestes a disputarmos uma Libertadores da América. De que adianta rirmos dos dribles que Ronaldinho Gaúcho aplicou em Dunga se o ex-melhor do mundo fez a mesma coisa conosco? O balãozinho, um drible mais comum no futebol, Ronaldinho nos aplicou em 2001; o elástico de letra, algo mais requintado, mais bem-elaborado, tomamos em 2011, com requintes de… fiasco nacional e internacional.

Hoje, lamentavelmente, jogador de futebol não sabe o que é ser torcedor. Futebol é apenas um jogo, sim, mas envolve paixão de torcedor, dedicação, entrega, incentivo a quem representa o clube. Por isso, torcedor merece ser tratado com respeito. Sem torcedor não há futebol, não há clube que se mantenha. Para Jonas voltar à arquibancada de um estádio, só se for por estar suspenso e não poder participar de um jogo de sua equipe. Se ele torceu por um time algum dia, hoje isso certamente não mais ocorre, então ele nunca saberá o que é o sentimento de ser deixado para trás quando mais se precisa de alguém. Ele nunca mais saberá o que uma Libertadores representa para um clube como o Grêmio e principalmente para seu torcedor, hoje tão carente de heróis, de conquistas.

Ronaldinho já foi torcedor; depois, torcedor e jogador, e posteriormente mostrou que junto com seu talento crescia em si uma outra torcida: pelo seu sucesso individual, tão somente individual, e pelas aspirações gigantescas da carreira. Hoje ele não é torcedor de time nenhum, não imagina sequer 10% do que o torcedor gremista deve sentir por ele.

De fato, não podemos culpar Jonas por o atacante, de repente, ter ido buscar sua independência financeira na Espanha, mas ele muito bem conhece a maneira como foi acolhido aqui e a estrutura e o carinho que recebeu. E, tendo acompanhado de dentro do Grêmio as tratativas e o esforço para o retorno de Ronaldinho, sabe como a torcida ficou com o desfecho disso tudo. Ou seja, não havia, por parte de Jonas, o interesse de permanecer e muito menos de respeitar o torcedor – e, pior, não havia o interesse de esforçar-se para sair pela porta da frente.

Tivesse pensado no clube que tão bem o acolheu e no torcedor, teria saído encontrando um modo de deixar mais dinheiro para a instituição. Ou seja, beneficiando-a também, e não apenas beneficiando-se. Mas não: usou – e por meio de seu irmão – as vaias de sexta-feira como um (pobre, inconvincente) argumento para justificar uma saída que já estava toda esquematizada. Nem Jonas nem Ronaldinho sabem hoje o que é ser torcedor e, se por um lado devem ter sabido em determinada época, nunca mais saberão, nunca mais sentirão sua pele queimar pelo time que se ama.

Como eu disse anteriormente, nenhum dos dois gremistas da pracinha, com a idade que têm, conseguirá hoje entender tudo por completo, nenhum deles deixará de ter Jonas como ídolo, como um exemplo de goleador a ser seguido. Jonas continuará a ter seu nome gritado pelos garotos naquela pracinha, num grito que terá a mesma explosão de dias atrás. Mas, apesar de eu torcer para que os garotos, na sua infância, não percam essa admirável inocência nesta sua tão pouca idade, espero que eles se preparem para, daqui a um tempo, sofrer ao descobrir o que é ingratidão.