quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

O refém que eu mesmo me tornei

Talvez eu tenha vivido tudo o que um ser humano tem para viver. Ou talvez eu não tenha vivido absolutamente nada.

Acho, na verdade, que só o tempo vai dizer. Só minhas ações futuras vão dizer.

Mas tempo? Quem sou eu para falar dele? Quem sou eu para um dia ousar reclamar dele ou para, como fiz agora, tentar jogar nas suas costas a responsabilidade pelo meu destino e pela minha história? Tempo talvez seja a única coisa de que não posso reclamar. E é, sim, a única coisa que não posso responsabilizar (ou creditar) pelos meus fracassos (ou sucessos).

Digo tudo isso porque, com 43 anos, não se pode reclamar do tempo. Tempo, durante a vida, eu já tive de sobra. Talvez eu ainda não tenha alcançado a metade da minha vida, ou talvez sim, mas hoje, com 43 anos, realmente não sei dizer se fiz bom uso do tempo ou não.

Independentemente de tudo isso, a verdade é que há poucos meses uma nova fase na minha vida se iniciou. Se tempo é um dos elementos de que não posso reclamar, apoio familiar é outro. E chances são outro.

Vou ser o mais sincero possível e relatar que a minha iniciação nesse mundo obscuro se deveu, sim, à influência de amigos, naquele fatídico dia, quatro anos atrás. É claro que cada um faz o que quer e não faz o que não deseja, mas a pressão foi muito forte e considero que não tive como fugir. Pode ser estranho que somente aos 39 anos alguém conheça e se encante por uma droga, depois de uma vida toda regrada, assim digamos, mas não vai soar nada estranho se eu lhes disser que festas, curtição e más influências – amigos que parecem ser amigos mas que, quando lhes convém, não se tornam um bom significado dessa palavra – não têm tempo definido para aparecer, para acontecer, para lhe fazer companhia. E foi assim comigo. Simplesmente me deixei levar, e, em pouco tempo, a maconha me tomou conta.

Não, minha ex-esposa não é a culpada, mas a verdade é que nossa conflituosa separação me atormentou, me desesperou – me consumiu. E, diante do afastamento que houve entre mim e meus dois filhos – preferiram ficar com a mãe, e eu não quis discutir, nem entrar na Justiça –, uma nova vida regada a festas, algazarras e farras acabou-me sendo a saída, a minha válvula de escape. Num primeiro momento, achei diversão onde parecia haver diversão. Depois, achei decepção e arrependimento onde pensei que continuaria a achar diversão.

Até penso que não faz sentido descrever, aqui, a maneira abrupta, irreparável, irrefreável e incontrolável com que a minha vida decaiu. Vocês devem imaginar. Embora, mesmo distantes, minha ex-esposa, meus filhos e meus pais tivessem tentado por diversas vezes me ajudar, fui do céu ao inferno num piscar de olhos. E quando meus olhos se abriram por completo depois desse breve piscar, já era tarde demais para eu achar tempo de fechá-los por longos minutos, sonhar com dias melhores e acordar numa outra realidade. Não haveria outra realidade – pelo menos não naquele momento.

Hoje, depois de tudo o que passei – tudo o que vocês podem imaginar –, cá estou, sozinho, nessa clínica de reabilitação. Confesso que a vida tem sido difícil aqui. Tudo transcorre muito devagar, parece que as coisas não evoluem, e o tempo, algo que tive em excesso mas que passou rapidamente na minha vida, agora parece ser um inimigo, um desafeto, simplesmente porque estou correndo contra ele e, nessa ação desesperadora, ele só tem me mostrado que quanto mais passa, quanto mais rápido ele decide ser, mais difícil se torna a minha situação, mais angustiante e sufocante ela fica – nada tem dado certo. Tempo e chances eu já tive de sobra na minha vida. Em boa parte dela, os aproveitei, mas hoje faço mau uso. E, já que estou sem forças, o que me resta, infelizmente, é mais uma vez esperar o tempo passar e eu contar com a ajuda dele – cá estou de novo, jogando a responsabilidade sobre suas costas. Não custa eu tentar, mais uma vez, que ele contribua comigo. Depois que perdi família e amigos, meu único amigo ou meu único inimigo só poderá ser mesmo o tempo.

Agora, me resta me tornar um aliado dele – ou permitir que passe por cima de mim e me destrua como ser humano. Não tenho outras alternativas, tudo já se esgotou. Apenas o passar dos meses, ou dos anos, vai me dizer se usei o tempo a favor de minha existência ou se o utilizei como uma maneira de abreviar minha passagem por esse mundo e de me esconder – como um covarde – das várias realidades que sempre me cercaram.

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