quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Sob a chuva, sem se importar

Algo irreal, mas, se Ele pudesse, e conseguisse, daria a lua inteirinha para Ela. Como se não bastassem as inúmeras declarações feitas durante o dia, os gestos, o afeto sincero, os presentes e os abraços – cujo calor transmitia praticamente tudo o que Ele sentia –, Ele considerava que algo maior precisava ser feito para demonstrar o amor que sentia por aquela pessoa que fazia dele um garoto tão feliz.


Não que com tudo isso Ela não acreditasse que fosse verdadeiro o que Ele sentia, longe disso, mas Ele se considerava paranoico mesmo. Admitia isso a si. Perdê-la – algo impensável neste momento, pois tudo estava indo muito bem – seria trágico. Tê-la ao seu lado seria maravilhoso. Tê-la ao seu lado é maravilhoso, na verdade, e tem sido ao longo destes dez meses. E era por isso que Ele considerava importantes, e, mesmo assim, insuficientes, todas as suas manifestações em relação a Ela.

Mas será que Ela gostava de tudo isso que Ele fazia, desse incansável e diário trabalho dele de agradá-la ao máximo? Posso estar agindo com excesso, Ele pensava às vezes. Ah, demonstrações de amor nunca são demais, Ele concluía sempre.

Bom, se algo maior precisava mesmo ser feito, o grande dia havia chegado. Ele tinha esperado ansiosamente por essa data… E esse dia, afinal, saiu melhor do que encomenda: uma chuva torrencial, ruas alagadas, tons de multicoloridos guarda-chuvas sendo praticamente o único ponto visível nas ruas… As marquises dos estabelecimentos comerciais eram, naquele momento, o lugar mais disputado por quem havia saído de casa sem se preparar para se molhar.

Ele se lembrava diariamente do sonho que Ela costumeiramente revelava ter: andar de lancha, mesclando essa atividade a se atirar na água – usando colete salva-vidas, é claro.

“Que tal se um dia nos beijássemos sob a chuva? Seria tão romântico…”, Ela propôs numa tarde ensolarada, uma requisição que Ele também colocou na sua lista de esforços a fazer por Ela.

Dois dos sonhos que Ela tinha – os revelados acima – foram escancarados a Ele, mas, abrigados em toda essa vontade dela de concretizá-los, escondiam um certo temor que a acompanhava. Há dois anos, na praia, em férias com sua família, Ela confiou demais na sua capacidade de nadar. Lançou-se ao mar, foi o adentrando confiantemente – e a força da natureza acabou sendo maior do que a dela; depois, estava Ela na areia, ofegante, cercada por vários curiosos. Aquilo não lhe sairia da cabeça tão cedo, e, sim, a água da chuva, talvez por às vezes vir em “grandíssima quantidade”, era capaz de lhe causar assombros também, e esses dois desejos revelados a Ele muito possivelmente eram um engajamento de mostrar a si mesma que poderia enfrentar seus temores.

O pai dele havia-o advertido, inúmeras vezes, de que não pegasse sem permissão a lancha da família, veículo que ficava abrigado numa estrutura que a família possuía próximo a uma barragem. Apesar dos dez meses de relacionamento, Ela não tinha conhecimento dessa lancha, e, quando Ela revelou um dos seus sonhos, Ele fez questão de manter o segredo ainda mais guardado, para um dia surpreendê-la. E o esforço e essa única desobediência ao pai valeriam a pena, eram por uma ótima causa, Ele pensou.

Um pouco menos intensa, mas ainda forte, a chuva continuava a cair.

– Mor, se arruma, que daqui a pouco estou passando aí – Ele disse, depois de Ela atender ao telefonema.

– Tá, mas onde vamos ir? E essa chuva? – Ela indagou, um tanto quanto surpresa.

– Ah, vamos sair por aí, sem rumo – Ele brincou.

Foi de apenas quinze minutos o intervalo entre a ligação e sua saída de casa para buscá-la, mas uma eternidade para Ele – minutos de ansiedade, de apreensão. Andar de lancha não lhe era nenhuma novidade, muito menos algo extraordinário, mas era um sonho dela, algo pelo qual Ela ansiava, e, para Ele, todo sonho deve ser tratado com respeito e valorizado. E o sentimento de que o plano estava muito próximo de dar certo, e de que mais uma vez iria levar alegria a Ela, chegava a causar rebuliços em seu estômago – nervosismo?

– Nossa, que chuva, estou toda molhada… Onde estamos indo? – Ela perguntou, já no carro.

Incrivelmente, e não sabendo como estava conseguindo fazer isso, Ele conseguiu se segurar e não lhe dar uma resposta concreta. Estava sendo difícil, diante da insistência dela – mas certamente Ela não estava concluindo que fosse algo ruim. E, quando Ela se deu conta de que o caminho que seguiam levava à casa que a família do namorado tinha próximo da barragem, pelo menos teve certeza de que era para lá que estavam indo, pois já havia participado de festas da família lá.

– Mor, fica aqui – Ele pediu, na sala de estar, logo depois de chegarem à casa.

– Mas onde você está indo?

– Calma – Ele respondeu, indo ao quarto que os pais têm, para pegar a chave da lancha e a da casinha onde o veículo ficava guardado. Depois, foi à cozinha e saiu pela porta dos fundos.

Agora com muita paciência e mais tranquilo, e pegando muita chuva, Ele tirou a lancha da casinha e colocou na água. Naqueles instantes seus sentimentos eram muitos, mas principalmente de realização. Não parava de pensar em como Ela estava naquele momento – ali na casa, sozinha, sem saber o que se passava – e em como seria a reação dela quando o plano fosse colocado em prática. Mas, qualquer que fosse a reação, Ele tinha certeza de que, por mais simples que fosse, sua atitude em proporcionar a Ela aquele momento que estava por chegar era mais uma prova de que, não importasse em qual situação, Ele sempre estaria disposto a vê-la sorrir.

– Pronto – Ele balbuciou, ao chegar à porta de entrada da casa e começar a limpar os tênis em um tapete.

– Mas onde você esteve? Está todo molhado!

– Ah, não faz mal, você também vai ficar. Vem aqui.

Confusa, Ela o encheu de perguntas, e, quanto mais Ele tentava fugir do assunto, mais a insistência dela crescia. Enquanto de sua boca saíam questionamentos, afirmações, suposições e desconfianças, a única coisa que saía da boca dele eram respostas monossilábicas.

– Não acredito! – Ela exclamou, surpresa, espantada, logo quando o campo de visão dos dois permitiu que enxergassem a lancha, posicionada na água.

– Não era um dos seus sonhos?

– Sim, era, mas… como você nunca me contou?

– Ah, pra fazer surpresa. E meu pai já me disse que não é pra eu andar sem pedir pra ele, mas…

– E você não pediu? Isso não vai dar certo…

– Calma. Vai, sim. E eu curto muito aventuras. Ainda mais com você.

Mesmo pegando muita chuva, mesmo que quase não estivessem conseguindo enxergar um ao outro, Ela transmitia estar muito feliz – e Ele sentia isso, e era por esse motivo que redobrava os cuidados na hora de pilotar a lancha, para que cada um daqueles minutos que se sucediam fosse marcante e especial para Ela.

– Nossa, não estou nem acreditando… O que mais falta fazer pra você me presentear? – ela brincou.

– Ah, não sei… trazer a lua talvez nem seja tão difícil.

E o mais romântico dos beijos sob a chuva se desenrolou. E, sim, Ela gostava de tudo o que Ele fazia por Ela.

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