Todas aquelas pessoas que Ela
agora via na calçada pareciam-lhe novas. É bem verdade que muito possivelmente
Ela já tivesse visto algum daqueles rostos alguma vez, mas aqueles transeuntes
lhe transmitiam este estranhamento porque pareciam fazer parte de uma nova
realidade. Ver pessoas não era algo estranho em sua vida, mas era algo estranho
agora.
Estranho porque ver pessoas
depois de meses aprisionada em casa era-lhe, esta sim, uma novidade. E talvez
uma novidade muito difícil de se aceitar logo de cara… E, desta forma, Ela
acabava entendendo seu estranhamento, suas dúvidas. Aqueles quatro meses em que
Ela praticamente não saíra de casa não estavam muito bem digeridos, estavam
recentes em sua cabeça, e atormentavam-lhe a mente.
O fim de um relacionamento não
parece ser nada fácil – e, se para o autor desta história não parece,
para Ela realmente não era. E Ela sabia do seu próprio sofrimento.
Mas, certamente, muitas daquelas pessoas que agora Ela via na calçada, e que
representavam algo novo para Ela, já passaram por isso. E estavam ali,
chocando-se os corpos, disputando espaço naquele estreito emaranhado de
concreto, e estavam tocando sua vida. Isso parecia-lhe claro pelo modo como
davam seus passos à frente. Ela via vontade, empenho nestes passos. Ela não
deveria fazer o mesmo?
Sim, pensou. E Ela sentia que, de
alguma maneira, aquela nova realidade estava-lhe fazendo bem. Que tal tomar um
sorvete? É, fazer isso sozinha, depois de muito tempo fazendo isso com alguém
especial, poderia vir a ser-lhe estranho… E foi estranho – mas nada
que a abalasse.
Conhecer uma nova pessoa ao ir
tomar sorvete sozinha? Que coisa igualmente estranha! Rejeitar os olhares
lançados por aquele Garoto? Talvez não dê mais tempo… a abordagem do Garoto a
Ela parecia iminente. Tão iminente que se concretizou.
Após novos rostos, novas
situações, vieram novas palavras. O Garoto parecia falar bem. Era bem
articulado. Anteriormente perceptiva, atenta ao novo mundo que a cercava, agora
Ela parecia mergulhar no mundo criado por aquele Garoto. E, ao se lembrar do
momento em que o Garoto saiu de sua mesa e se dirigiu até a dela, Ela se deu
conta de que a vontade e o empenho vistos nos passos daquelas pessoas podiam
ser facilmente vistos nos passos do tal Garoto. Ela já criara uma
certeza a respeito dele.
Qual é o sabor de um novo beijo?
Deve ter o sabor do desconhecido, pensou. E o desconhecido deixa marcas boas
quando estamos dispostos a conhecê-lo, quando passamos a conhecê-lo com ímpeto,
Ela concluiu. E aquele novo beijo, ocorrido dentro daquela nova realidade,
vindo depois de novas palavras, teve um bom sabor.
Duas semanas depois, Ela estava
mergulhada naquela nova realidade. Uma realidade que, apesar de já ter sido
iniciada há algum tempo, Ela procurava manter como nova. Ela ainda queria
sentir o sabor do novo, o sabor daquilo tudo, o sabor do desconhecido.
E Ela parecia ter sido tão conquistada pelo Garoto que agora os encontros
ocorriam na casa dela.
Mas será que é tão fácil assim?
Será que o novo e o desconhecido são tão fulminantes a ponto de fazê-la
esquecer o que passou? Será que, na relação que o tempo possui na vida das
pessoas, o passado se deixa vencer tão facilmente pelo presente e pelo futuro?
Não. Ela queria se convencer de
que a vida era bem assim, fácil de ser por nós manipulada, mas, no fundo,
acabava admitindo a si mesma o contrário.
Do lado de fora da casa, um dedo
indicador direito pressionou o botão da campainha. A campainha tocou. Ela se
levantou do sofá da sala, no qual estava com o Garoto, e foi até a porta. O
Garoto ficou um pouco atrás dela. Ela abriu a porta e O viu. Era Ele.
O causador de muitas das dúvidas que lhe atormentavam a cabeça. E Ela ficou
surpresa, espantada. Estagnou.
– Eu não esperava ter você aqui –
disse Ela.
– É que eu esperava ter você
comigo para o resto da minha vida – respondeu Ele, e, ao avistar o Garoto,
pensou, erradamente, tê-la perdido para sempre, e virou as costas e partiu,
possivelmente para não voltar tão cedo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário