terça-feira, 25 de setembro de 2012

Esperas e esperas

Todas aquelas pessoas que Ela agora via na calçada pareciam-lhe novas. É bem verdade que muito possivelmente Ela já tivesse visto algum daqueles rostos alguma vez, mas aqueles transeuntes lhe transmitiam este estranhamento porque pareciam fazer parte de uma nova realidade. Ver pessoas não era algo estranho em sua vida, mas era algo estranho agora.


Estranho porque ver pessoas depois de meses aprisionada em casa era-lhe, esta sim, uma novidade. E talvez uma novidade muito difícil de se aceitar logo de cara… E, desta forma, Ela acabava entendendo seu estranhamento, suas dúvidas. Aqueles quatro meses em que Ela praticamente não saíra de casa não estavam muito bem digeridos, estavam recentes em sua cabeça, e atormentavam-lhe a mente.

O fim de um relacionamento não parece ser nada fácil – e, se para o autor desta história não parece, para Ela realmente não era. E Ela sabia do seu próprio sofrimento. Mas, certamente, muitas daquelas pessoas que agora Ela via na calçada, e que representavam algo novo para Ela, já passaram por isso. E estavam ali, chocando-se os corpos, disputando espaço naquele estreito emaranhado de concreto, e estavam tocando sua vida. Isso parecia-lhe claro pelo modo como davam seus passos à frente. Ela via vontade, empenho nestes passos. Ela não deveria fazer o mesmo?

Sim, pensou. E Ela sentia que, de alguma maneira, aquela nova realidade estava-lhe fazendo bem. Que tal tomar um sorvete? É, fazer isso sozinha, depois de muito tempo fazendo isso com alguém especial, poderia vir a ser-lhe estranho… E foi estranho – mas nada que a abalasse.

Conhecer uma nova pessoa ao ir tomar sorvete sozinha? Que coisa igualmente estranha! Rejeitar os olhares lançados por aquele Garoto? Talvez não dê mais tempo… a abordagem do Garoto a Ela parecia iminente. Tão iminente que se concretizou.

Após novos rostos, novas situações, vieram novas palavras. O Garoto parecia falar bem. Era bem articulado. Anteriormente perceptiva, atenta ao novo mundo que a cercava, agora Ela parecia mergulhar no mundo criado por aquele Garoto. E, ao se lembrar do momento em que o Garoto saiu de sua mesa e se dirigiu até a dela, Ela se deu conta de que a vontade e o empenho vistos nos passos daquelas pessoas podiam ser facilmente vistos nos passos do tal Garoto. Ela já criara uma certeza a respeito dele.

Qual é o sabor de um novo beijo? Deve ter o sabor do desconhecido, pensou. E o desconhecido deixa marcas boas quando estamos dispostos a conhecê-lo, quando passamos a conhecê-lo com ímpeto, Ela concluiu. E aquele novo beijo, ocorrido dentro daquela nova realidade, vindo depois de novas palavras, teve um bom sabor.

Duas semanas depois, Ela estava mergulhada naquela nova realidade. Uma realidade que, apesar de já ter sido iniciada há algum tempo, Ela procurava manter como nova. Ela ainda queria sentir o sabor do novo, o sabor daquilo tudo, o sabor do desconhecido. E Ela parecia ter sido tão conquistada pelo Garoto que agora os encontros ocorriam na casa dela.

Mas será que é tão fácil assim? Será que o novo e o desconhecido são tão fulminantes a ponto de fazê-la esquecer o que passou? Será que, na relação que o tempo possui na vida das pessoas, o passado se deixa vencer tão facilmente pelo presente e pelo futuro?

Não. Ela queria se convencer de que a vida era bem assim, fácil de ser por nós manipulada, mas, no fundo, acabava admitindo a si mesma o contrário.

Do lado de fora da casa, um dedo indicador direito pressionou o botão da campainha. A campainha tocou. Ela se levantou do sofá da sala, no qual estava com o Garoto, e foi até a porta. O Garoto ficou um pouco atrás dela. Ela abriu a porta e O viu. Era Ele. O causador de muitas das dúvidas que lhe atormentavam a cabeça. E Ela ficou surpresa, espantada. Estagnou.

– Eu não esperava ter você aqui – disse Ela.

– É que eu esperava ter você comigo para o resto da minha vida – respondeu Ele, e, ao avistar o Garoto, pensou, erradamente, tê-la perdido para sempre, e virou as costas e partiu, possivelmente para não voltar tão cedo.

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