sábado, 29 de setembro de 2012

Texto criado a partir de músicas da Fresno

Bom, produzi o texto abaixo em novembro de 2008. Cheguei em casa após o trabalho – um pouco depois das 18h –, reuni diversos nomes de músicas da Fresno e comecei a escrever o texto, me utilizando deles. Até postei na comunidade oficial da banda no Orkut, e, para a minha felicidade, o tópico rendeu cento e poucos comentários. =)

Na época, tive de fazer algumas adaptações, pois a pessoa dos nomes de algumas músicas varia um pouco entre “tu” e “você”, e nesse sentido, em algumas situações, o texto não segue uma coerência, há certas discordâncias. No mais, as palavras em negrito são os nomes das músicas. Segue.

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O que sobrou

Sabe, às vezes me pego me lembrando da minha infância. Da nossa infância. Crescemos juntos… se lembra do quanto eu gostava de você? Confesso que pode ter sido pelo fato de termos sido vizinhos, mas você não pode se dar ao orgulho de não admitir que havia um laço que nos prendia. Mas… onde está esse laço? O que sobrou dele?

Ah!, que mundo injusto… Viver minha infância com você e olhar diariamente teu semblante, ora feliz, ora triste, e descobrir apenas anos depois que ele me era especial… Que, de fato, havia algo atrás dos olhos teus que me encantava… E eu sempre me fazia a mesma pergunta: “Será que sinto algo diferente por ela?”. E chegava à – errada – conclusão, era sempre aquela velha história do orgulho em admitir: “A resposta é não”.

Mas, num certo dia, vi você partir. Sem me avisar ou se despedir. Tive de assistir da janela do meu quarto a você ir embora. Tentei não chorar, mas não consegui, e digo-lhe que as únicas duas lágrimas que caíram, uma de cada olho, não foram suficientes para demonstrar o que estava sentindo; era um misto de tristeza e revolta diante das impossibilidades de fazer aquilo ter um fim diferente. Queria que aquela cena fosse um sonho; por mim, que fosse até um pesadelo, de um sono profundo do qual nunca desejaria acordar.

Logo você… Não sei se já passou por isso, mas sabe o que é sentir o peso do mundo inteirinho sobre suas costas? Sabe o que é ver todos os seus planos e promessas, desejos, sonhos, enfim, sabe o que é ver tudo isso evaporar em um piscar de olhos? E as verdades que tanto guardei durante aquele tempo todo não passaram mesmo de meras, estúpidas e inúteis frases engasgadas, em uma garganta que insistia, inutilmente, em não engolir aquilo tudo.

Espero que, nesse presente que vivemos, você tenha ao seu lado alguém que te faz sorrir. Com o passar dos anos, muita coisa mudou em meus sentimentos. Desde já afirmo que aquela experiência me fez crescer como pessoa e aprender muita coisa. Saiba que o que hoje você vê aqui é reflexo daquela época.

Se essa carta chegar a você, saiba que, sim, às vezes me faço uns questionamentos, mas que todas as minhas respostas começam com “o que sentia por ela está morto e enterrado a 7 palmos do chão”. E, assim, as dúvidas param ali.

Hoje, estou feliz sozinho e não quero lembrar esse passado. O que direi a seguir não era o que eu queria, não era o que eu desejava, mas, infelizmente, cheguei à triste conclusão de que o amor não vale absolutamente nada.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Sob a chuva, sem se importar

Algo irreal, mas, se Ele pudesse, e conseguisse, daria a lua inteirinha para Ela. Como se não bastassem as inúmeras declarações feitas durante o dia, os gestos, o afeto sincero, os presentes e os abraços – cujo calor transmitia praticamente tudo o que Ele sentia –, Ele considerava que algo maior precisava ser feito para demonstrar o amor que sentia por aquela pessoa que fazia dele um garoto tão feliz.


Não que com tudo isso Ela não acreditasse que fosse verdadeiro o que Ele sentia, longe disso, mas Ele se considerava paranoico mesmo. Admitia isso a si. Perdê-la – algo impensável neste momento, pois tudo estava indo muito bem – seria trágico. Tê-la ao seu lado seria maravilhoso. Tê-la ao seu lado é maravilhoso, na verdade, e tem sido ao longo destes dez meses. E era por isso que Ele considerava importantes, e, mesmo assim, insuficientes, todas as suas manifestações em relação a Ela.

Mas será que Ela gostava de tudo isso que Ele fazia, desse incansável e diário trabalho dele de agradá-la ao máximo? Posso estar agindo com excesso, Ele pensava às vezes. Ah, demonstrações de amor nunca são demais, Ele concluía sempre.

Bom, se algo maior precisava mesmo ser feito, o grande dia havia chegado. Ele tinha esperado ansiosamente por essa data… E esse dia, afinal, saiu melhor do que encomenda: uma chuva torrencial, ruas alagadas, tons de multicoloridos guarda-chuvas sendo praticamente o único ponto visível nas ruas… As marquises dos estabelecimentos comerciais eram, naquele momento, o lugar mais disputado por quem havia saído de casa sem se preparar para se molhar.

Ele se lembrava diariamente do sonho que Ela costumeiramente revelava ter: andar de lancha, mesclando essa atividade a se atirar na água – usando colete salva-vidas, é claro.

“Que tal se um dia nos beijássemos sob a chuva? Seria tão romântico…”, Ela propôs numa tarde ensolarada, uma requisição que Ele também colocou na sua lista de esforços a fazer por Ela.

Dois dos sonhos que Ela tinha – os revelados acima – foram escancarados a Ele, mas, abrigados em toda essa vontade dela de concretizá-los, escondiam um certo temor que a acompanhava. Há dois anos, na praia, em férias com sua família, Ela confiou demais na sua capacidade de nadar. Lançou-se ao mar, foi o adentrando confiantemente – e a força da natureza acabou sendo maior do que a dela; depois, estava Ela na areia, ofegante, cercada por vários curiosos. Aquilo não lhe sairia da cabeça tão cedo, e, sim, a água da chuva, talvez por às vezes vir em “grandíssima quantidade”, era capaz de lhe causar assombros também, e esses dois desejos revelados a Ele muito possivelmente eram um engajamento de mostrar a si mesma que poderia enfrentar seus temores.

O pai dele havia-o advertido, inúmeras vezes, de que não pegasse sem permissão a lancha da família, veículo que ficava abrigado numa estrutura que a família possuía próximo a uma barragem. Apesar dos dez meses de relacionamento, Ela não tinha conhecimento dessa lancha, e, quando Ela revelou um dos seus sonhos, Ele fez questão de manter o segredo ainda mais guardado, para um dia surpreendê-la. E o esforço e essa única desobediência ao pai valeriam a pena, eram por uma ótima causa, Ele pensou.

Um pouco menos intensa, mas ainda forte, a chuva continuava a cair.

– Mor, se arruma, que daqui a pouco estou passando aí – Ele disse, depois de Ela atender ao telefonema.

– Tá, mas onde vamos ir? E essa chuva? – Ela indagou, um tanto quanto surpresa.

– Ah, vamos sair por aí, sem rumo – Ele brincou.

Foi de apenas quinze minutos o intervalo entre a ligação e sua saída de casa para buscá-la, mas uma eternidade para Ele – minutos de ansiedade, de apreensão. Andar de lancha não lhe era nenhuma novidade, muito menos algo extraordinário, mas era um sonho dela, algo pelo qual Ela ansiava, e, para Ele, todo sonho deve ser tratado com respeito e valorizado. E o sentimento de que o plano estava muito próximo de dar certo, e de que mais uma vez iria levar alegria a Ela, chegava a causar rebuliços em seu estômago – nervosismo?

– Nossa, que chuva, estou toda molhada… Onde estamos indo? – Ela perguntou, já no carro.

Incrivelmente, e não sabendo como estava conseguindo fazer isso, Ele conseguiu se segurar e não lhe dar uma resposta concreta. Estava sendo difícil, diante da insistência dela – mas certamente Ela não estava concluindo que fosse algo ruim. E, quando Ela se deu conta de que o caminho que seguiam levava à casa que a família do namorado tinha próximo da barragem, pelo menos teve certeza de que era para lá que estavam indo, pois já havia participado de festas da família lá.

– Mor, fica aqui – Ele pediu, na sala de estar, logo depois de chegarem à casa.

– Mas onde você está indo?

– Calma – Ele respondeu, indo ao quarto que os pais têm, para pegar a chave da lancha e a da casinha onde o veículo ficava guardado. Depois, foi à cozinha e saiu pela porta dos fundos.

Agora com muita paciência e mais tranquilo, e pegando muita chuva, Ele tirou a lancha da casinha e colocou na água. Naqueles instantes seus sentimentos eram muitos, mas principalmente de realização. Não parava de pensar em como Ela estava naquele momento – ali na casa, sozinha, sem saber o que se passava – e em como seria a reação dela quando o plano fosse colocado em prática. Mas, qualquer que fosse a reação, Ele tinha certeza de que, por mais simples que fosse, sua atitude em proporcionar a Ela aquele momento que estava por chegar era mais uma prova de que, não importasse em qual situação, Ele sempre estaria disposto a vê-la sorrir.

– Pronto – Ele balbuciou, ao chegar à porta de entrada da casa e começar a limpar os tênis em um tapete.

– Mas onde você esteve? Está todo molhado!

– Ah, não faz mal, você também vai ficar. Vem aqui.

Confusa, Ela o encheu de perguntas, e, quanto mais Ele tentava fugir do assunto, mais a insistência dela crescia. Enquanto de sua boca saíam questionamentos, afirmações, suposições e desconfianças, a única coisa que saía da boca dele eram respostas monossilábicas.

– Não acredito! – Ela exclamou, surpresa, espantada, logo quando o campo de visão dos dois permitiu que enxergassem a lancha, posicionada na água.

– Não era um dos seus sonhos?

– Sim, era, mas… como você nunca me contou?

– Ah, pra fazer surpresa. E meu pai já me disse que não é pra eu andar sem pedir pra ele, mas…

– E você não pediu? Isso não vai dar certo…

– Calma. Vai, sim. E eu curto muito aventuras. Ainda mais com você.

Mesmo pegando muita chuva, mesmo que quase não estivessem conseguindo enxergar um ao outro, Ela transmitia estar muito feliz – e Ele sentia isso, e era por esse motivo que redobrava os cuidados na hora de pilotar a lancha, para que cada um daqueles minutos que se sucediam fosse marcante e especial para Ela.

– Nossa, não estou nem acreditando… O que mais falta fazer pra você me presentear? – ela brincou.

– Ah, não sei… trazer a lua talvez nem seja tão difícil.

E o mais romântico dos beijos sob a chuva se desenrolou. E, sim, Ela gostava de tudo o que Ele fazia por Ela.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Esperas e esperas

Todas aquelas pessoas que Ela agora via na calçada pareciam-lhe novas. É bem verdade que muito possivelmente Ela já tivesse visto algum daqueles rostos alguma vez, mas aqueles transeuntes lhe transmitiam este estranhamento porque pareciam fazer parte de uma nova realidade. Ver pessoas não era algo estranho em sua vida, mas era algo estranho agora.


Estranho porque ver pessoas depois de meses aprisionada em casa era-lhe, esta sim, uma novidade. E talvez uma novidade muito difícil de se aceitar logo de cara… E, desta forma, Ela acabava entendendo seu estranhamento, suas dúvidas. Aqueles quatro meses em que Ela praticamente não saíra de casa não estavam muito bem digeridos, estavam recentes em sua cabeça, e atormentavam-lhe a mente.

O fim de um relacionamento não parece ser nada fácil – e, se para o autor desta história não parece, para Ela realmente não era. E Ela sabia do seu próprio sofrimento. Mas, certamente, muitas daquelas pessoas que agora Ela via na calçada, e que representavam algo novo para Ela, já passaram por isso. E estavam ali, chocando-se os corpos, disputando espaço naquele estreito emaranhado de concreto, e estavam tocando sua vida. Isso parecia-lhe claro pelo modo como davam seus passos à frente. Ela via vontade, empenho nestes passos. Ela não deveria fazer o mesmo?

Sim, pensou. E Ela sentia que, de alguma maneira, aquela nova realidade estava-lhe fazendo bem. Que tal tomar um sorvete? É, fazer isso sozinha, depois de muito tempo fazendo isso com alguém especial, poderia vir a ser-lhe estranho… E foi estranho – mas nada que a abalasse.

Conhecer uma nova pessoa ao ir tomar sorvete sozinha? Que coisa igualmente estranha! Rejeitar os olhares lançados por aquele Garoto? Talvez não dê mais tempo… a abordagem do Garoto a Ela parecia iminente. Tão iminente que se concretizou.

Após novos rostos, novas situações, vieram novas palavras. O Garoto parecia falar bem. Era bem articulado. Anteriormente perceptiva, atenta ao novo mundo que a cercava, agora Ela parecia mergulhar no mundo criado por aquele Garoto. E, ao se lembrar do momento em que o Garoto saiu de sua mesa e se dirigiu até a dela, Ela se deu conta de que a vontade e o empenho vistos nos passos daquelas pessoas podiam ser facilmente vistos nos passos do tal Garoto. Ela já criara uma certeza a respeito dele.

Qual é o sabor de um novo beijo? Deve ter o sabor do desconhecido, pensou. E o desconhecido deixa marcas boas quando estamos dispostos a conhecê-lo, quando passamos a conhecê-lo com ímpeto, Ela concluiu. E aquele novo beijo, ocorrido dentro daquela nova realidade, vindo depois de novas palavras, teve um bom sabor.

Duas semanas depois, Ela estava mergulhada naquela nova realidade. Uma realidade que, apesar de já ter sido iniciada há algum tempo, Ela procurava manter como nova. Ela ainda queria sentir o sabor do novo, o sabor daquilo tudo, o sabor do desconhecido. E Ela parecia ter sido tão conquistada pelo Garoto que agora os encontros ocorriam na casa dela.

Mas será que é tão fácil assim? Será que o novo e o desconhecido são tão fulminantes a ponto de fazê-la esquecer o que passou? Será que, na relação que o tempo possui na vida das pessoas, o passado se deixa vencer tão facilmente pelo presente e pelo futuro?

Não. Ela queria se convencer de que a vida era bem assim, fácil de ser por nós manipulada, mas, no fundo, acabava admitindo a si mesma o contrário.

Do lado de fora da casa, um dedo indicador direito pressionou o botão da campainha. A campainha tocou. Ela se levantou do sofá da sala, no qual estava com o Garoto, e foi até a porta. O Garoto ficou um pouco atrás dela. Ela abriu a porta e O viu. Era Ele. O causador de muitas das dúvidas que lhe atormentavam a cabeça. E Ela ficou surpresa, espantada. Estagnou.

– Eu não esperava ter você aqui – disse Ela.

– É que eu esperava ter você comigo para o resto da minha vida – respondeu Ele, e, ao avistar o Garoto, pensou, erradamente, tê-la perdido para sempre, e virou as costas e partiu, possivelmente para não voltar tão cedo.

domingo, 23 de setembro de 2012

Circundando os ponteiros

Tempo. Ah, o tempo… Talvez controlá-lo seja a única situação que de fato não podemos fazer em nossa vida. Tente parar o seu relógio ou voltar algumas horas nele. Você conseguirá. Mas o tempo maior, aquele regido mundialmente, não vai parar. E você será obrigado a se portar dentro do tempo dos outros, não no seu, mesmo que você insista em deixar que seu relógio marque 16h quando, na verdade, o mundo ao seu redor marca 18h.


E, na tentativa de ser diferente do resto do mundo, talvez você tenha atrasado duas horas na sua vida. Você precisará recuperar estes 120 minutos para voltar a ser igual a todas as pessoas, para voltar a andar dentro dos padrões regidos pela sociedade, e, se você se considera realmente diferenciado em relação aos outros, além de ter o trabalho de recuperar estas duas horas, terá de se esforçar muito mais para estar à frente dos demais – não no relógio, mas em produtividade resultante daquilo que você se julga capaz de fazer.

Mas, se formos analisar bem, o tempo dentro do qual andamos, o tempo ao qual nos moldamos, o tempo ao qual nos submetemos, ele não passa de algo convencionado pela humanidade. As 24 horas de um dia são as aproximadas 24 horas da rotação da Terra, sim, e isto é estabelecido há muito tempo e não há como mudar. Mas quem teve o poder de estabelecer, há muitos anos, que uma hora equivale a 60 minutos, que 60 minutos são 3.600 segundos e que um dia, afinal, tem 86.400 segundos?

No fim, o tempo não mudará e dificilmente virá a conspirar a nosso favor. Ele corre, corre – e nós corremos atrás dele. Admito que prefiro o uso de tempo que faço hoje a usar este tempo a favor do ócio, a favor do nada, a favor do pleno vazio em minha vida. Mas gostaria de poder passar mais tempo com minha família, com meus amigos, com aqueles que moram longe, com minha namorada e com as pessoas que a cercam, com a cachorrinha daqui de casa, a Molly… Gostaria de poder chegar à minha casa num dia e me esparramar na minha cama, sem o compromisso assumido de me acordar submetido ao tal tempo.

Depois, ao refletir a respeito, descubro que na maioria das vezes não é possível executar estes meus planos – “na próxima vou conseguir”, “na próxima vou conseguir”, e nada. Mas me conforta saber que isto não acontece apenas comigo, e me conforta, ainda mais, saber que isto não é possível justamente porque as pessoas que tenho na minha vida estão fazendo o mesmo esforço para se desvencilhar disso tudo. E, no fim das contas, o tempo que sobra a elas pode se aliar ao tempo que sobra para mim: aí, unimos nossos tempos e aproveitamos cada segundo – sim, aqueles mesmos segundos estabelecidos pela humanidade.