quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Da simples brincadeira com o pequeno Murian ao choro do adolescente

Confesso que chorei. Não sei quanto tempo após meu último choro, mas chorei. E com orgulho, pois foi algo que aconteceu a partir de uma emoção que começou a despertar – e não a partir de algo que eu tivesse feito e, após, me arrependido. O motivo do choro? Repentinamente, me lembrei de meu avô materno, Irineu, que partiu em julho de 1995, vítima de um acidente de carro, quando eu tinha apenas seis anos de idade.


O “confesso” da frase inicial não quer, de maneira nenhuma, significar algo do tipo “ah, muito a contragosto, sou obrigado a admitir que chorei”. Não. Ver-se obrigado a admitir que chorou é a pior forma possível de mostrar-se um cabeça-dura, e isso eu não sou. Sei que sou chato, que guardo sentimentos que na verdade deveria compartilhar com outras pessoas, sei que sou fechado, mas sei admitir minhas fraquezas.

Sabe, o choro ocorreu na madrugada de 31 de dezembro de 2009. Por eu ser novo à época em que meu avô partiu, não pude viver muitos momentos ao seu lado. Em função disso, vieram-me à cabeça umas poucas situações; a mais marcante que tenho é que ele me erguia até eu encostar a cabeça no teto; após, me puxava de volta e, em seguida, ia repetindo as duas ações. E como eu gostava daquela brincadeira, talvez uma das mais simples do mundo.

E chorei não por ir me lembrando dessas situações, mas, sim, porque me veio um desejo imediato de ter mais lembranças a respeito de meu avô. E eu não tenho, e queria, de uma hora para outra, ter. Queria possuir mais situações das quais pudesse me lembrar, mais lembranças a respeito dele. Mas, digo novamente, eu não as tenho, e tal falta impulsionou um enorme vazio, que constatei ser uma das maiores lamentações de minha vida, e que deverá sê-lo até o fim dela.

Meu avô era uma grande pessoa, mas era um pouco conservador, um legítimo pai à moda antiga. Era seu jeitão, e era dessa forma que conquistava a admiração e o respeito de todos. Quando chorei, fui ao quarto de meus pais para fazer uma pergunta a respeito dele; tendo obtido a resposta, fiz menção de retornar ao meu quarto, fingir a meus pais que eu estava bem e voltar a dormir.

Obviamente, eu não estava, e minha mãe percebeu isso e me chamou para sentar na cama deles e conversar. Falamos a respeito daquela época toda, e fiquei sabendo de algo que, ao mesmo tempo, me abalou, me orgulhou imensamente e, principalmente, aumentou meu vazio e minha lamentação: aquele homem, sério, fechado, conservador, começou a se soltar e a se abrir mais à sua família após meu nascimento, após começar a brincar com o pequenino Murian.

EU fui o responsável por isso. EU fui o responsável por transformar aquele ser humano amado e respeitado. EU, então um ser pequeno, novato, durante muito tempo recém-chegado à família, assumi, mesmo não tendo muita noção das coisas, uma função da qual me orgulharei para o resto de minha vida. Apesar da saudade, apesar de o tempo não voltar, apesar da tristeza por eu não possuir muitas lembranças e desejar ter mais, fiquei sabendo de algo que me conforta e que me enche de realização.

Com tudo isso, eu penso ter uma função a cumprir por aqui, e buscarei fazer de tudo para que meu avô, que com certeza me olha lá de cima, e as outras pessoas ao meu redor tenham motivos para sentir o mesmo orgulho que eu sinto.

Meu avô Irineu com minha avó Anayr, que sempre foi muito persistente, característica que se intensificou após a perda

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

O filho segurava uma foto dos quatro

Por que sua chegada é dessa forma, tão repentina? Será que, em vida, fazemos algo que a atinja e que nos faça merecer sua aparição? Fazemos algo merecedor de sua despreocupação e que como punição tenha sua presença? Ou será que, segundo seus conceitos e concepções, quem vive de forma correta e honesta é seu principal alvo?


De tão acostumada que está a deixar pessoas sujas e desonestas no mundo, você passa a considerar que são elas quem deve permanecer? É isso? Ou será que está convencida de que, por a maioria ser exatamente assim, aquela minoria, formada por seres direitos e exemplares, deve ser extinta?

Por que uma esposa que antes olhava para o lado na cama e ali via seu marido agora precisa bater de frente, em todas as noites, com aquele espaço não-preenchido, tão vazio? Por que ela tem de se ver obrigada a se deparar com tamanha sobra de travesseiro, lençol e cobertores?

Por que um filho que diariamente tomava café da manhã, almoçava e jantava com seu pai precisa olhar para aquela cadeira e enxergá-la vazia? Onde está aquela voz firme e convicta que ecoava pelos cômodos da casa? Quem a levou? Quem tem o direito de levá-la, tirá-la, seja de quem for?



O dia 2 de outubro de 2009 deveria ter sido de festa nacional, por a cidade do Rio de Janeiro ter sido escolhida a sede dos Jogos Olímpicos de 2016. Deveria. Bom, de fato, foi, para a maioria da população. Mas não para várias pessoas ao meu redor. Sabe, olhar para a tevê e assistir àquela festa, àquela aglomeração pulando, sorrindo, e, em seguida, ter de olhar para o contraste, aquele pessoal cabisbaixo, atingido da pior e mais traiçoeira forma possível.

Falo isso porque, no mesmo 2 de outubro, vimo-nos obrigados a aceitar o falecimento de N.S., uma pessoa extremamente próxima de minha família. Homem correto, trabalhador, exemplar, pai de família. De apenas 53 anos, praticamente a metade do que uma vida pode durar. Sim, infelizmente, sua vida foi interrompida pela metade. Infelizmente, ele “vi”, não “viveu”. Mas temos o conforto de saber que, durante o tempo em que ele “vi”, fez muito mais do que muita pessoa que “viveu”.

Deixa esposa, o filho L.S. e a filha N.S., ambos com um pouco mais de 20 anos de idade. Três seres humanos trabalhadores, que, junto a ele, formavam uma família unida, batalhadora e vencedora. Agora, os três terão de seguir sem ele, mas tenho certeza de que a união só vai aumentar e se tornar, ainda mais, a grande característica dessa família. O legado e tudo o que ele ensinou jamais lhes serão subtraídos.

Mas ela, aquela à qual fiz questionamentos no início do texto, é realmente devastadora. Como posso lhe transmitir, leitor, o desespero da filha ao ver, no necrotério, pela primeira vez, o corpo inerte do pai? Como posso transmitir uma voz falha, entupida, carregada, que gritava, aos prantos, “Pai! Pai! Eu te amo, meu paizinho!”? Existe dor pior? Existe situação pior com a qual se deparar? Quando perguntaram à filha se ela preferiria já ir-se encaminhando ao velório, ela respondeu “Não, não, ficarei aqui por o tempo que for preciso”. E, após, também aos prantos, ela exclama “Por favor, depois me deixem dar um abraço no meu pai, um último abraço!”.



No velório, naturalmente, comoção geral. O filho segurava uma foto dos quatro. Sabe, havia pessoas, até mesmo familiares, que sozinhos, com seus próprios sentimentos, não estavam totalmente inconsoláveis. Não sei no que estavam pensando; talvez, em algo distante, talvez no futuro, mas essas pessoas conseguiam, encontrando forças, se conter. Porém, quando vinha um outro alguém, chorando, consolá-los, lhes desejar força, lhes oferecer os sentimentos de pesar, aí era imediato: os dois se uniam em um só choro, em uma só tristeza, em uma só angústia. Passavam a compartilhar emoções que as pessoas, de maneira nenhuma, gostariam de dividir naquele momento. E o filho segurava uma foto dos quatro.

Indivíduos se aproximavam do caixão. Os familiares não saíam dali de perto, e o filho segurava uma foto dos quatro. Pessoas tocavam nas mãos, no rosto de N.S., não acreditando, e o filho segurava uma foto dos quatro.

Pessoas, junto ao caixão, balançavam a cabeça em desaprovação àquilo tudo, não se conformando com o que se viam obrigadas a presenciar e a sentir. O filho segurava uma foto dos quatro. Outras olhavam para aquele objeto de madeira, bem esculpido, brilhoso, reluzente, mas que cuja beleza nada interessava, pois ele abrigava em si uma vida, sonhos, sentimentos, o amor de familiares e amigos. Tal objeto tinha dentro de si toda uma história de dedicação e companheirismo, uma história de honestidade, uma história de doação ao próximo. Ali, naquele objeto que expunha beleza e rodeado de flores, estava uma vida de preocupação com o bem-estar de familiares e amigos. O filho ainda segurava uma foto dos quatro.



Mas fazer o quê, não é? Você sabe que é implacável e que dita o ritmo de tudo aqui. Sabe que é implacável e até penso, comigo, que você se aproveita disso. Sabe que, na maioria dos casos, estamos sujeitos aos seus desejos. Mas por que essa agressividade, hein, Morte, por quê? Por que dilacerar sonhos de forma tão repentina?

Sei que sua resposta não virá, tampouco você mudará de atitude. Mas nós, aqui, na Terra, nos uniremos e conseguiremos superar, nem que seja por uns instantes, todo o sofrimento que você tem nos trazido. Temos certeza de que, juntos, somos mais fortes do que você. Não vamos condicionar nossas vidas à expectativa que você tem de dar as caras por aqui. Não. Chega.

O filho segurava uma foto dos quatro. Em função do passar do tempo, ou de um ato involuntário, ela estava rasgada na altura em que N.S. (pai) aparecia. O filho segurava uma foto dos quatro. O filho segurava uma foto dos quatro.