Considero, numa opinião bem
minha, que alguns jovens de Panambi poderiam pensar na possibilidade de fazer
uma reavaliação do comportamento que têm em algumas situações, principalmente
quando estas situações forem chegar ao conhecimento de um grande público e vierem
a expor esses jovens – ou seja, quando este comportamento adotado for,
posteriormente, visto por muitas outras pessoas, seja da cidade, da região ou
do Estado. E o comportamento de que falo, e que vou revelar agora, consiste em
uma das melhores qualidades do ser humano, pois transmite alegria. Falo do
sorriso.
Falo, na verdade, do sorriso nas
fotos. Sorrir nas fotos é legal, demonstra simpatia, demonstra, muitas vezes,
estar de bem com a vida, mas nem sempre é uma atitude bem-vinda em imagens,
como bem sabemos. Ou seja, sorrir ou não nas fotos depende da situação. E não
estou falando, afinal, nada mais do que o óbvio.
No primeiro semestre do ano
passado, como os panambienses bem devem lembrar, as tradicionais associações
responsáveis pelo transporte dos universitários – eu sou um – organizaram,
antes de os ônibus partirem com os estudantes às universidades, algumas
passeatas com estes veículos pelas ruas da cidade. Cada aluno embarcou no
ônibus pertencente ao seu roteiro, no horário certinho, e, depois que todos
estavam ocupando os respectivos veículos, tiveram início as passeatas de
manifestação. Para quem não lembra, ou para quem não mora em Panambi, o
movimento buscava chamar a atenção da população – e fazer a mensagem chegar ao
prefeito – para o fato de que o então chefe do Executivo panambiense, e que meses
depois viria a ser reeleito, Miguel Schmitt-Prym, por estar em ano eleitoral,
estava optando por não liberar às associações a subvenção anual dos universitários,
prevista em lei municipal.
Pré-candidato, na época, à
reeleição, Miguel afirmava que seu desejo pessoal era de liberar os recursos,
sim, mas que a Lei Eleitoral não permitia que em ano de eleições os candidatos
liberassem verbas para entidades ou projetos que não tivessem cunho
estritamente social – ou seja, seu receio era de que, se liberasse, fosse
impedido pela lei de concorrer à reeleição. Resumindo: caso não houvesse o
repasse da subvenção – e tempos depois houve –, a mensalidade do transporte
universitário para os alunos teria seu valor aumentado significativamente, fato
este que era o motivo de toda a manifestação e da insatisfação dos estudantes. O
movimento contou com faixas com dizeres como “Prefeito, cadê o nosso dinheiro?”
e “Mentiroso”.
Organizar manifestações pacíficas
e lutar civilizadamente por aquilo que consideram ser seus direitos? É claro,
isso é mais do que válido, e tem de ser feito. Mas agora entro no assunto que
realmente motivou a produção deste texto. Nas fotos – das manifestações – que
depois circularam, ou tiradas pela imprensa, ou por eles mesmos, ou por outras
pessoas, os próprios estudantes universitários, naquele movimento todo,
exigindo aquilo que consideravam um direito seu, saíam com um sorriso todo
aberto e faziam pose nas fotos, como se estivessem sendo fotografados em uma
festa, numa boate, ou em uma junção de amigos. Ou seja, eles portavam cartazes
com frases incisivas, frases direcionadas, frases que demonstravam revolta e
inconformidade com a situação – mas, por outro lado, lamentavelmente, abriam um
largo sorriso e faziam pose no momento de serem fotografados.
Aí, lhes pergunto: como, como,
como estes estudantes – que estavam se manifestando por algo sério – iriam
conseguir fazer com que as pessoas, a comunidade e as autoridades acreditassem
na seriedade e na inconformidade de suas manifestações, de seus desejos, de sua
indignação? Como, ao ver aquelas fotos, as pessoas de fora iriam acreditar que aqueles
estudantes estavam realmente engajados na causa e indignados com toda aquela
situação? Como é que numa manifestação o indivíduo vai conseguir transmitir
seriedade e firmeza quando, ao ser fotografado, aparece sorrindo e fazendo
pose, objetivando sair bonitinho e simpático na imagem, como se estivesse em
uma festa com os amigos?
Uma outra situação que motivou a
produção deste texto ocorreu recentemente, quando uma entidade panambiense –
não convém citar o nome, mas quem estiver lendo certamente vai entender –
formada por jovens buscou arrecadar valores para contribuir com as vítimas do
incêndio que houve na boate Kiss, em Santa Maria, no dia 27 de janeiro,
causando a morte, até agora, de 236 pessoas. Não estou questionando, é claro, o
fato de ter-se buscado essa arrecadação. Muito pelo contrário: foi uma ação
mais do que louvável, mais do que digna de elogios, mais do que digna de
aplausos, mais do que importante e consciente. Por este lado, meus mais
sinceros parabéns pela iniciativa. O que questiono é o fato de que, numa imagem
coletiva de todos os integrantes da entidade que participavam da elogiável
ação, o sorriso aberto imperou na foto, deu o tom a ela – assim como se
estivessem numa festa, a exemplo do que já falei.
É uma opinião muito minha, posso
estar completamente equivocado, mas, a meu ver, quando a pessoa participa
ativamente de uma ação motivada por algo sério, um sorriso escancarado não cabe
nas fotos. Simplesmente porque, a meu ver, esse sorrisinho aberto não transmite
a informação de que esta pessoa está engajada naquilo, não transmite a
confiança de que está se dedicando ao ato e o levando a sério. Em Panambi, isso
foi verificado também no dia 31 de janeiro, durante a caminhada de paz em
homenagem às vítimas.
Não estou afirmando, aqui, de
maneira nenhuma, que por dentro a pessoa tem a obrigação de estar triste, de
estar abalada, e que por fora a tristeza deve imperar na sua vida depois desses
acontecimentos. Não. Eu só penso que um sorriso escancarado e demonstrando
enorme felicidade não condiz, repito, não condiz com a causa na qual este
indivíduo está se engajando.
Simplificando tudo o que já
escrevi, paremos e pensemos: o não repasse da subvenção anual aos
universitários era uma situação séria, certo? A manifestação dos estudantes, a
princípio, era para ser séria e demonstrar indignação, certo? E aí: diante de
situações sérias, cabe um sorriso escancarado? Cabe sorrir e fazer pose para
fotos? A tragédia de Santa Maria foi algo sério, preocupante e entristecedor, correto?
As necessidades – as mais diversas, desde a financeira até a de apoio
psicológico – que as famílias das vítimas e os sobreviventes da boate Kiss têm
são sérias e preocupantes, correto? Desenvolver uma ação relacionada à tragédia
é algo pautado pela seriedade, correto? Promover uma caminhada demonstrando o
luto e pedindo paz é algo sério, correto? Então, onde, onde, onde cabe o
sorriso aberto e escancarado nessas situações todas?
Fico imaginando a cena de os
familiares das vítimas de Santa Maria – que perderam filhos, que perderam
irmãos – recebendo estas fotos e umas pessoas lhes explicando: “Vejam só, esse
aqui é um pessoal de Panambi que quis contribuir com a causa e ajudar vocês”.
Então, os familiares, já esgotados com o tanto que choraram, olham as fotos e
veem aqueles sorrisos abertos, simpáticos, escancarados, as poses nas fotos…
Como seria esta cena? Eu não sou nenhum especialista em etiqueta, tampouco sou
o dono da verdade, mas, como ser humano, como alguém que é capaz de alimentar
sentimentos e tem condições de se colocar no lugar de outras pessoas, afirmo
que um sorriso nem sempre é bem-vindo em fotos. Deve-se, antes, pensar na
atividade que se está desenvolvendo e de que maneira as pessoas relacionadas a
tal acontecimento receberiam aquilo que para esta pessoa é apenas mais uma
demonstração de simpatia e mais uma foto em que está saindo… bonitinha.