quarta-feira, 30 de outubro de 2013

A bicada final

Foi na raça, na garra, na superação. Alternando bons e maus momentos ao longo da partida, o Bica Meu Galo enfrentou a experiente equipe do Papillon no último sábado, 26, à tarde, e acabou encontrando não apenas um adversário, mas também uma ardente e intensa BATALHA CAMPAL. E longe de seus domínios.

O jogo, guerreado na TRINCHEIRA adversária, o Parque Papillon, não começou favorável ao time galês (palavra, aqui, oriunda de Galo, e não do país europeu). Isso porque, no fim de semana de realização, em todo o Brasil, do Enem, os dois times começaram o jogo SE ESTUDANDO muito. Ataques lá e cá, contra-ataques, chegadas perigosas ao QG inimigo, jogadas ríspidas: tudo isso e MAIS UM POUCO fizeram parte dos primeiros minutos de partida, marcados por um 0 a 0 que perdurava mas não representava a intensidade da batalha travada até entonces.

Até que o Bica abriu o placar.

O que não significou absolutamente nada, pois, minutos depois, em chegadas fortes e IMPETUOSAS do adversário, o Bica não conseguiu ABATER seus inimigos de guerra visando ao cancelamento das ações e, com um poderio bélico mortífero, o Papillon conseguiu a virada.

A partida transcorria ao lado do campo dos Morangos, que, diferentemente do que poderia prever Caio Fernando Abreu, não estavam nada MOFADOS. Os morangos exalavam um sabor fresco, de frutas recém-colhidas, pois a intensidade verificada na partida não lembrava em nada um BOLOR, por exemplo.

Depois de a guerra ser disputada freneticamente ao longo de três tempos, os adversários se recolheram ao vestiário a céu aberto e, um tanto próximos por causa da fuga que tentavam imprimir das águas de São Pedro, tiveram de discutir suas estratégias para o SET derradeiro com os oponentes estando, infelizmente, praticamente PENDURADOS aos seus ouvidos.

Trocentas cervejas depois, ambos os times voltaram ao campo de guerra, sob uma chuva forte, intensa, que havia se iniciado ainda quando as equipes discutiam as estratégias no vestiário. O fim estava próximo – o fim do jogo e, talvez, para uma das duas equipes.

E o fim parecia estar mais próximo do Bica Meu Galo do que da equipe adversária. O quarto e último SET começou com um 10 a 6 pró-experientes. Mas isso não assustou o time galês, que, embora em desvantagem no placar, ia, aos poucos, mostrando suas armas, seu poderio bélico. Sob uma chuva que tentava, mas não conseguia, molhar o armamento galês e torná-lo insosso, infrutífero, inexplorável, o time bicaense, na base da raça, conseguiu o empate. E isso foi motivo de muita vibração, o que se tornou, depois, um COMBUSTÍVEL para a equipe imaginar que poderia continuar ateando fogo na partida e que a virada era, sim, possível. E, ainda com os corpos molhados, os jogadores dentro de campo, os reservas e a torcida que não existia assistiram ao noivo marrento Darlan APARAR, debaixo dos paus, um cruzamento do presidente Guga e BICAR, conforme o nome da equipe, a bola para dentro do gol, decretando, sem possibilidades de revogação por parte do adversário, até porque temos um presidente advogado, a vitória dos guerreiros visitantes.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

A Santa Maria dos diferentes sentimentos

Sou gaúcho e sempre morei no Rio Grande do Sul, mais precisamente em Panambi, na região Noroeste – à exceção de ter residido em Santa Maria em 2006, quando fiz cursinho pré-vestibular. Como gaúcho, sei muito bem o quanto o povo daqui ama o seu Estado, a sua cultura, a sua tradição, a sua música, a sua culinária, os seus costumes, os seus lugares – e, muito mais do que isso, sei o quanto o povo daqui ama o povo daqui, as pessoas que vivem neste lugar.

Não estou falando de um amor exacerbado e desmedido, como aquele das pessoas que, por conta disso, chegam até a pensar em separatismo, em fazer do Rio Grande do Sul um novo país – não, não estou falando destes gaúchos, até porque considero que o Rio Grande do Sul precisa do Brasil e, da mesma forma, o Brasil precisa de todas as suas unidades federativas. Eu estou falando dos gaúchos que simplesmente sentem um grande orgulho desta terra e das qualidades que ela e seu povo têm.

Antes mesmo de ocorrer a tragédia que abalou o Estado, o Brasil e o mundo em janeiro deste ano – o incêndio na boate Kiss, que levou a vida de 242 jovens –, eu tinha uma visão a respeito da cidade de Santa Maria, que, por se localizar no Centro do território gaúcho, também é conhecida como “O Coração do Rio Grande”. E, depois daquele triste acontecimento, e principalmente de umas semanas para cá, aquela visão só se acentuou, só ficou maior em tudo aquilo que eu penso. Talvez o fato de eu ter residido no município em 2006 tenha alguma influência nisso, mas avalio que, se houver, não seja muita. E eu credito parte da comoção gaúcha que houve com a tragédia a isto que carrego comigo em relação à cidade.

Eu posso estar enganado, estar escrevendo até algo absurdo, mas considero que a gigantesca comoção gaúcha – vejam bem: estou falando apenas da gaúcha – que houve com a tragédia em Santa Maria também tomou este tamanho, estas proporções, porque o acontecimento teve como local Santa Maria. Foi porque ocorreu em Santa Maria.

O que eu quero dizer com tudo isso? Quero dizer que, não é de hoje, Santa Maria é uma espécie de segunda cidade no coração de todos os gaúchos que não nasceram, não moraram/moram ou nunca passaram por lá. É uma cidade que sempre contou com a admiração e o carinho de todos os gaúchos. Todos os sul-rio-grandenses já ouviram falar sobre Santa Maria alguma vez na vida, já leram algo sobre Santa Maria, já assistiram a algo sobre Santa Maria. Além do fato de ser o 5° município mais populoso do Rio Grande do Sul, vários fatores contribuem para isto, como a tradicional UFSM, que tem um dos vestibulares mais concorridos do Estado e faz da cidade uma cidade conhecidamente universitária, um berço da juventude, e que abriga milhares de estudantes do ensino superior, e, também, o Internacional e o Riograndense, times de futebol que todos os gaúchos conhecem e, embora hoje disputem a Série A-2 do campeonato estadual, têm muita tradição por aqui. Mas, também, analiso Santa Maria como uma segunda cidade no coração de milhões de gaúchos e como recebedora de imenso carinho porque poucas vezes os sul-rio-grandenses ouviram falar negativamente dela, ou viram na cidade o epicentro de uma crise que tenha se deflagrado no Estado, ou que ela tenha nos envergonhado e manchado a honra e o orgulho gaúchos. A meu ver, nunca. Ou seja, Santa Maria sempre foi “famosa” no Rio Grande do Sul, sempre se ouviu falar dela, e nunca houve motivos para que os gaúchos se sentissem envergonhados ou constrangidos por abrigá-la no coração de seu amado Estado e ela ser um dos nossos maiores expoentes. Santa Maria sempre ocupou um lugar cativo no amor que os gaúchos sentem pela sua amada terra, pela sua amada querência.

A respeito de parte – volto a frisar: parte – da gigantesca comoção sentida pelos gaúchos com o acontecimento na boate Kiss se dever ao fato de ele ter ocorrido justamente em Santa Maria e não em outra cidade do Estado, sei, é claro, que vidas são vidas e que elas têm o mesmo valor em qualquer lugar do mundo. A comoção também seria geral se 242 jovens perdessem a vida em qualquer outra cidade do Rio Grande do Sul, e só teríamos a lamentar, mas penso que o sentimento seria diferente se a tragédia tivesse ocorrido, por exemplo, em Osório, Agudo, Barra Funda, Machadinho, Redentora ou Panambi, que são, juntamente com muitas outras, cidades sobre as quais os gaúchos, em nível estadual, não ouvem falar com frequência ou pelas quais não alimentam um carinho especial. Ou seja, o fato de o acontecimento ter sido em Santa Maria, somado à situação de todos os gaúchos a conhecerem e terem um carinho especial por ela, com certeza contribuiu muito – e tem contribuído – para que a comoção, o susto, o impacto, o sentimento e a inconformidade fossem maiores e ficassem latentes no coração, na alma e no pensamento de todos os que amam este Estado. Tenho certeza de que os gaúchos me compreendem.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

É que nem sempre um sorriso cai bem

Considero, numa opinião bem minha, que alguns jovens de Panambi poderiam pensar na possibilidade de fazer uma reavaliação do comportamento que têm em algumas situações, principalmente quando estas situações forem chegar ao conhecimento de um grande público e vierem a expor esses jovens – ou seja, quando este comportamento adotado for, posteriormente, visto por muitas outras pessoas, seja da cidade, da região ou do Estado. E o comportamento de que falo, e que vou revelar agora, consiste em uma das melhores qualidades do ser humano, pois transmite alegria. Falo do sorriso.

Falo, na verdade, do sorriso nas fotos. Sorrir nas fotos é legal, demonstra simpatia, demonstra, muitas vezes, estar de bem com a vida, mas nem sempre é uma atitude bem-vinda em imagens, como bem sabemos. Ou seja, sorrir ou não nas fotos depende da situação. E não estou falando, afinal, nada mais do que o óbvio.

No primeiro semestre do ano passado, como os panambienses bem devem lembrar, as tradicionais associações responsáveis pelo transporte dos universitários – eu sou um – organizaram, antes de os ônibus partirem com os estudantes às universidades, algumas passeatas com estes veículos pelas ruas da cidade. Cada aluno embarcou no ônibus pertencente ao seu roteiro, no horário certinho, e, depois que todos estavam ocupando os respectivos veículos, tiveram início as passeatas de manifestação. Para quem não lembra, ou para quem não mora em Panambi, o movimento buscava chamar a atenção da população – e fazer a mensagem chegar ao prefeito – para o fato de que o então chefe do Executivo panambiense, e que meses depois viria a ser reeleito, Miguel Schmitt-Prym, por estar em ano eleitoral, estava optando por não liberar às associações a subvenção anual dos universitários, prevista em lei municipal.

Pré-candidato, na época, à reeleição, Miguel afirmava que seu desejo pessoal era de liberar os recursos, sim, mas que a Lei Eleitoral não permitia que em ano de eleições os candidatos liberassem verbas para entidades ou projetos que não tivessem cunho estritamente social – ou seja, seu receio era de que, se liberasse, fosse impedido pela lei de concorrer à reeleição. Resumindo: caso não houvesse o repasse da subvenção – e tempos depois houve –, a mensalidade do transporte universitário para os alunos teria seu valor aumentado significativamente, fato este que era o motivo de toda a manifestação e da insatisfação dos estudantes. O movimento contou com faixas com dizeres como “Prefeito, cadê o nosso dinheiro?” e “Mentiroso”.

Organizar manifestações pacíficas e lutar civilizadamente por aquilo que consideram ser seus direitos? É claro, isso é mais do que válido, e tem de ser feito. Mas agora entro no assunto que realmente motivou a produção deste texto. Nas fotos – das manifestações – que depois circularam, ou tiradas pela imprensa, ou por eles mesmos, ou por outras pessoas, os próprios estudantes universitários, naquele movimento todo, exigindo aquilo que consideravam um direito seu, saíam com um sorriso todo aberto e faziam pose nas fotos, como se estivessem sendo fotografados em uma festa, numa boate, ou em uma junção de amigos. Ou seja, eles portavam cartazes com frases incisivas, frases direcionadas, frases que demonstravam revolta e inconformidade com a situação – mas, por outro lado, lamentavelmente, abriam um largo sorriso e faziam pose no momento de serem fotografados.

Aí, lhes pergunto: como, como, como estes estudantes – que estavam se manifestando por algo sério – iriam conseguir fazer com que as pessoas, a comunidade e as autoridades acreditassem na seriedade e na inconformidade de suas manifestações, de seus desejos, de sua indignação? Como, ao ver aquelas fotos, as pessoas de fora iriam acreditar que aqueles estudantes estavam realmente engajados na causa e indignados com toda aquela situação? Como é que numa manifestação o indivíduo vai conseguir transmitir seriedade e firmeza quando, ao ser fotografado, aparece sorrindo e fazendo pose, objetivando sair bonitinho e simpático na imagem, como se estivesse em uma festa com os amigos?

Uma outra situação que motivou a produção deste texto ocorreu recentemente, quando uma entidade panambiense – não convém citar o nome, mas quem estiver lendo certamente vai entender – formada por jovens buscou arrecadar valores para contribuir com as vítimas do incêndio que houve na boate Kiss, em Santa Maria, no dia 27 de janeiro, causando a morte, até agora, de 236 pessoas. Não estou questionando, é claro, o fato de ter-se buscado essa arrecadação. Muito pelo contrário: foi uma ação mais do que louvável, mais do que digna de elogios, mais do que digna de aplausos, mais do que importante e consciente. Por este lado, meus mais sinceros parabéns pela iniciativa. O que questiono é o fato de que, numa imagem coletiva de todos os integrantes da entidade que participavam da elogiável ação, o sorriso aberto imperou na foto, deu o tom a ela – assim como se estivessem numa festa, a exemplo do que já falei.

É uma opinião muito minha, posso estar completamente equivocado, mas, a meu ver, quando a pessoa participa ativamente de uma ação motivada por algo sério, um sorriso escancarado não cabe nas fotos. Simplesmente porque, a meu ver, esse sorrisinho aberto não transmite a informação de que esta pessoa está engajada naquilo, não transmite a confiança de que está se dedicando ao ato e o levando a sério. Em Panambi, isso foi verificado também no dia 31 de janeiro, durante a caminhada de paz em homenagem às vítimas.

Não estou afirmando, aqui, de maneira nenhuma, que por dentro a pessoa tem a obrigação de estar triste, de estar abalada, e que por fora a tristeza deve imperar na sua vida depois desses acontecimentos. Não. Eu só penso que um sorriso escancarado e demonstrando enorme felicidade não condiz, repito, não condiz com a causa na qual este indivíduo está se engajando.

Simplificando tudo o que já escrevi, paremos e pensemos: o não repasse da subvenção anual aos universitários era uma situação séria, certo? A manifestação dos estudantes, a princípio, era para ser séria e demonstrar indignação, certo? E aí: diante de situações sérias, cabe um sorriso escancarado? Cabe sorrir e fazer pose para fotos? A tragédia de Santa Maria foi algo sério, preocupante e entristecedor, correto? As necessidades – as mais diversas, desde a financeira até a de apoio psicológico – que as famílias das vítimas e os sobreviventes da boate Kiss têm são sérias e preocupantes, correto? Desenvolver uma ação relacionada à tragédia é algo pautado pela seriedade, correto? Promover uma caminhada demonstrando o luto e pedindo paz é algo sério, correto? Então, onde, onde, onde cabe o sorriso aberto e escancarado nessas situações todas?

Fico imaginando a cena de os familiares das vítimas de Santa Maria – que perderam filhos, que perderam irmãos – recebendo estas fotos e umas pessoas lhes explicando: “Vejam só, esse aqui é um pessoal de Panambi que quis contribuir com a causa e ajudar vocês”. Então, os familiares, já esgotados com o tanto que choraram, olham as fotos e veem aqueles sorrisos abertos, simpáticos, escancarados, as poses nas fotos… Como seria esta cena? Eu não sou nenhum especialista em etiqueta, tampouco sou o dono da verdade, mas, como ser humano, como alguém que é capaz de alimentar sentimentos e tem condições de se colocar no lugar de outras pessoas, afirmo que um sorriso nem sempre é bem-vindo em fotos. Deve-se, antes, pensar na atividade que se está desenvolvendo e de que maneira as pessoas relacionadas a tal acontecimento receberiam aquilo que para esta pessoa é apenas mais uma demonstração de simpatia e mais uma foto em que está saindo… bonitinha.

sábado, 5 de janeiro de 2013

Seis guerreiras e um anjo


O que vocês estão vendo acima, obviamente, são seis mulheres. Isso fica claro na foto. Mas, para quem não está conseguindo enxergar nada além disso, a verdade é que há um homem de fibra ali, junto delas. Talvez, em circunstâncias normais, a envergadura de seus braços abertos não as alcançasse horizontalmente para com um único abraço envolvê-las por completo.

Mas a verdade é que este homem não sobrevive, hoje, de circunstâncias normais. Nós sim. Ele, não. Ali, atrás delas, na verdade, aparece um anjo - pois foi num anjo que ele, Irineu Vincensi, se transformou em 1995, após decidir deixar de nos vigiar aqui na Terra para nos vigiar lá de cima, do céu. Ele e minha avó materna, Anayr, a terceira na foto, tiveram cinco filhas. Cinco FILHAS. Ou seja, nenhum dos bebês nasceu homem, naturalmente. Meu avô Irineu era a única presença masculina naquela casa, quando elas eram crianças. Ele viveu em meio a seis mulheres. Elas viveram junto com um único homem, uma única presença masculina.

Única, sim, mas mais do que suficiente. Muito mais do que suficiente. Diria até que tudo o que ele fez por elas, toda a educação que deu, todos os ensinamentos que transmitiu, tudo isso me pareceu ter sido planejado minuciosamente para ele deixar como legado em sua breve, mas intensa, passagem pela Terra.

Não vou me alongar muito, mas avalio que essa foto, tirada na transição de um ano para outro, num momento em que foi dada a largada a mais um ano que todas essas seis mulheres começam novamente juntas, essa foto é indigna de um registro simples, é indigna de ser tratada como mais uma imagem. Isso porque sempre, sempre, sempre admirei muito essas seis mulheres.

Em julho de 1995, elas perderam a única presença masculina com a qual cresceram, a única presença masculina que lhe transmitiu ensinamentos, a única presença masculina que em alguns momentos se viram obrigadas a obedecer, e a única presença masculina que lhes deu, e de quem herdaram, a formação e o caráter que elas têm hoje. E por que as admiro muito?

Por quê? Talvez esta foto lhes dê a resposta, sem eu precisar dizer. Mas preciso dizer. É porque, apesar dos primeiros meses e anos tensos e turbulentos que houve após meu avô nos deixar, elas estão aí. Estão aí, de cabeça erguida. Estão aí, vivendo plenamente. Estão aí, realizadas profissionalmente. Estão aí, realizadas no âmbito familiar. Estão aí, como sempre estiveram, dando a seus filhos, de diferentes idades, a educação, o caráter e a hombridade que seu marido/pai sempre lhes transmitiu. Estão aí, honrando o legado que ele deixou. E as admiro porque, mesmo depois de tudo o que nos vimos obrigados a viver e a encarar, elas estão aí, sorrindo para esta foto.