Sou gaúcho e sempre morei no Rio
Grande do Sul, mais precisamente em Panambi, na região Noroeste – à exceção de
ter residido em Santa Maria em 2006, quando fiz cursinho pré-vestibular. Como
gaúcho, sei muito bem o quanto o povo daqui ama o seu Estado, a sua cultura, a
sua tradição, a sua música, a sua culinária, os seus costumes, os seus lugares
– e, muito mais do que isso, sei o quanto o povo daqui ama o povo daqui, as pessoas que vivem neste lugar.
Não estou falando de um amor exacerbado e desmedido, como aquele das pessoas que, por conta disso, chegam até a pensar em separatismo, em fazer do Rio Grande do Sul um novo país – não, não estou falando destes gaúchos, até porque considero que o Rio Grande do Sul precisa do Brasil e, da mesma forma, o Brasil precisa de todas as suas unidades federativas. Eu estou falando dos gaúchos que simplesmente sentem um grande orgulho desta terra e das qualidades que ela e seu povo têm.
Antes mesmo de ocorrer a tragédia que abalou o Estado, o Brasil e o mundo em janeiro deste ano – o incêndio na boate Kiss, que levou a vida de 242 jovens –, eu tinha uma visão a respeito da cidade de Santa Maria, que, por se localizar no Centro do território gaúcho, também é conhecida como “O Coração do Rio Grande”. E, depois daquele triste acontecimento, e principalmente de umas semanas para cá, aquela visão só se acentuou, só ficou maior em tudo aquilo que eu penso. Talvez o fato de eu ter residido no município em 2006 tenha alguma influência nisso, mas avalio que, se houver, não seja muita. E eu credito parte da comoção gaúcha que houve com a tragédia a isto que carrego comigo em relação à cidade.
Eu posso estar enganado, estar escrevendo até algo absurdo, mas considero que a gigantesca comoção gaúcha – vejam bem: estou falando apenas da gaúcha – que houve com a tragédia em Santa Maria também tomou este tamanho, estas proporções, porque o acontecimento teve como local Santa Maria. Foi porque ocorreu em Santa Maria.
O que eu quero dizer com tudo isso? Quero dizer que, não é de hoje, Santa Maria é uma espécie de segunda cidade no coração de todos os gaúchos que não nasceram, não moraram/moram ou nunca passaram por lá. É uma cidade que sempre contou com a admiração e o carinho de todos os gaúchos. Todos os sul-rio-grandenses já ouviram falar sobre Santa Maria alguma vez na vida, já leram algo sobre Santa Maria, já assistiram a algo sobre Santa Maria. Além do fato de ser o 5° município mais populoso do Rio Grande do Sul, vários fatores contribuem para isto, como a tradicional UFSM, que tem um dos vestibulares mais concorridos do Estado e faz da cidade uma cidade conhecidamente universitária, um berço da juventude, e que abriga milhares de estudantes do ensino superior, e, também, o Internacional e o Riograndense, times de futebol que todos os gaúchos conhecem e, embora hoje disputem a Série A-2 do campeonato estadual, têm muita tradição por aqui. Mas, também, analiso Santa Maria como uma segunda cidade no coração de milhões de gaúchos e como recebedora de imenso carinho porque poucas vezes os sul-rio-grandenses ouviram falar negativamente dela, ou viram na cidade o epicentro de uma crise que tenha se deflagrado no Estado, ou que ela tenha nos envergonhado e manchado a honra e o orgulho gaúchos. A meu ver, nunca. Ou seja, Santa Maria sempre foi “famosa” no Rio Grande do Sul, sempre se ouviu falar dela, e nunca houve motivos para que os gaúchos se sentissem envergonhados ou constrangidos por abrigá-la no coração de seu amado Estado e ela ser um dos nossos maiores expoentes. Santa Maria sempre ocupou um lugar cativo no amor que os gaúchos sentem pela sua amada terra, pela sua amada querência.
A respeito de parte – volto a frisar: parte – da gigantesca comoção sentida pelos gaúchos com o acontecimento na boate Kiss se dever ao fato de ele ter ocorrido justamente em Santa Maria e não em outra cidade do Estado, sei, é claro, que vidas são vidas e que elas têm o mesmo valor em qualquer lugar do mundo. A comoção também seria geral se 242 jovens perdessem a vida em qualquer outra cidade do Rio Grande do Sul, e só teríamos a lamentar, mas penso que o sentimento seria diferente se a tragédia tivesse ocorrido, por exemplo, em Osório, Agudo, Barra Funda, Machadinho, Redentora ou Panambi, que são, juntamente com muitas outras, cidades sobre as quais os gaúchos, em nível estadual, não ouvem falar com frequência ou pelas quais não alimentam um carinho especial. Ou seja, o fato de o acontecimento ter sido em Santa Maria, somado à situação de todos os gaúchos a conhecerem e terem um carinho especial por ela, com certeza contribuiu muito – e tem contribuído – para que a comoção, o susto, o impacto, o sentimento e a inconformidade fossem maiores e ficassem latentes no coração, na alma e no pensamento de todos os que amam este Estado. Tenho certeza de que os gaúchos me compreendem.