Aquela saída, à tarde, não lhe
fez bem. Não lhe fez bem porque só o que Ele encontrou foram sorrisos – e
sorrisos, definitivamente, eram algo de que Ele estava muito distante naquele
momento. Num momento assim, se lembrar da alegria dos outros lhe causava
tristeza. Pensar em sorrir lhe causava tristeza. E tentar fazer virem à mente
os momentos bons – agora tão distantes e inalcançáveis – lhe causava tristeza.
Tentar. Tentar. Tentar. Agora, era só isso o que
restava? Ora, se tentar se lembrar do
que passou já não era a melhor ideia, quanto mais tentar e perceber que aquilo
não estava ao seu alcance. Agora, seus rivais não eram só os sorrisos dos
outros. As tentativas de sua mente também estavam ali, como aquele amigo que
você sabe querer seu mal mas no qual você, sempre com um resquício de
esperança, insiste em acreditar.
Quando, em algum momento, os
amigos em que você deposita sua confiança e os amigos que estão mais próximos
são sua cama e seu travesseiro, e seu quarto, e a escuridão, e a sua mente, por
vezes traiçoeira, isso é um sinal de que, pelo menos momentaneamente, é hora de
perceber que eles não são amigos – resumindo, é hora de perceber que você está
sozinho. De nada adianta você se deitar à noite e pensar, pensar e pensar – porque,
se você estivesse feliz, você não pensaria: você viveria. E com o máximo de intensidade.
Fazia duas semanas, embora, na
sua cabeça, a situação já há um bom tempo não estivesse como Ele considerava o
ideal. Tentar levá-la para jantar havia sido uma última tentativa de evitar o
que já dava mostras de ser inevitável. Poderia ter sido um recomeço – um
recomeço de algo que, na visão dele, já não deveria ter chegado a esse estágio.
Naquela noite, Ela abriu um
sorriso que por uma fração de segundos acendeu uma ponta de esperança nele. Mas
Ele logo viu que aquele sorriso não era de felicidade. Era um sorriso
desgostoso, de desconforto. Desconforto por Ela estar ali – desconforto, quem
sabe, por aquilo que Ela havia planejado, por aquilo que Ela estava prestes a
fazer? Em suma, era um sorriso autoexplicativo. Indicava muita coisa.
Ele sentia no olhar dela que,
naqueles dois olhos, o futuro visualizado não reunia duas pessoas. Ou talvez
reunisse – mas a segunda pessoa certamente não era Ele. Mas por quê? Por que
toda essa situação? Ele não queria perguntar, não queria saber. Qualquer que
fosse o motivo, qualquer que fosse a situação, o que quer que fosse que o
futuro lhe reservava, Ele não queria saber.
Não queria, mas o instinto e a
razão estão longe de aceitar passivamente, de bom grado, o que o coração quer
ordenar.
– Eu só não consigo entender por
que você está assim. Só isso. – Ele murmurou, sem fazer nenhum esforço para que
a voz escondesse o medo que tinha da resposta.
O que poderia ser um recomeço
estava parecendo ser, na verdade, o começo. O começo do fim. O começo de um
pesadelo. O começo de um momento que Ele nunca desejou começar.
Casais, estes felizes, sorriam –
de verdade, espontaneamente – nas mesas ao redor. Todos ali, incluindo eles
dois, haviam sido recebidos com o máximo de capricho por parte do restaurante,
um capricho dedicado de forma igualitária, desde as mesas e as toalhas até os
pratos, talheres e atendimento. A música romântica, no volume propício, que
tocava ao fundo só acentuava o brilho que imperava no ambiente – o brilho de
pratos e talheres cuja limpeza reluzia e o brilho estampado no olhar de homens
e mulheres que, apesar das presenças alheias, viviam aquele momento como se
tivesse sido feito para apenas duas pessoas.
Duas pessoas. Qualquer outro
casal que estivesse ali. Mas não o formado por Ele e Ela.
– Eu devo uma explicação. Vai ser
difícil, mas vou fazer o máximo. – Ela iniciou, fazendo o máximo para parecer
firme. – Tudo o que vivemos até aqui foi maravilhoso, mas… chega, não dá mais, esfriou.
Nós estamos juntos todos os dias, mas mais distantes do que você possa
imaginar.
Ele tentou segurar a mão dela,
numa tentativa de mostrar que de maneira nenhuma aquilo lhe era indiferente –
de mostrar que, muito pelo contrário, Ele queria fazer de tudo para mudar o
rumo daquela situação. Ela rejeitou.
– Eu juro que tentei buscar
forças dentro de mim para continuar. Eu juro. Mas não consegui. Talvez a
culpada seja eu. Talvez tenha sido eu quem deixou a situação chegar a esse
ponto. Mas ela chegou. Não há o que possamos fazer. Não tem como tudo voltar a
ser igual. Eu não gostaria que isso ocorresse, mas se você me odiar com todas
as suas forças eu vou entender. Só não me peça para insistir no que está
errado, porque não vejo maneira de isso voltar a dar certo.
Ele queria, repentinamente,
passar a odiá-la. Afinal, Ela entenderia, como Ele acabara de ouvir. Ele queria
odiá-la. Odiá-la com forças. Ele queria não apenas odiá-la, mas também
esbofeteá-la, descontar toda a raiva em quem estava causando aquele turbilhão
louco e atordoante de sentimentos. Ele queria pegá-la pelo braço, conduzi-la
até o carro, levá-la a uma casa abandonada, amordaçá-la e trancá-la, para que,
se Ela não fosse sua sentimentalmente, fosse fisicamente, só para Ele ter
certeza de que Ela continuaria a ser sua, do modo como fosse.
Ele queria fazer tudo isso.
Mas só o que conseguiu foi levar
as duas mãos aos olhos, baixar a cabeça e permitir que o que era uma montanha
de incógnitas se transformasse em uma cachoeira de tristeza.
E só o que Ela conseguiu foi se
levantar também chorando, sem se despedir, desnorteada, e sair porta afora. Tinha
sido Ele quem havia a levado ao restaurante, mas, a essa altura, diante de todo
o quadro, telefonar para sua mãe buscá-la era o menor dos sacrifícios. Toda a
coragem e o preparo que Ela sabia ter tido no momento derradeiro à mesa Ela
sabia que lhe faltava, agora, para encarar a realidade.
***
Duas semanas depois daquela
noite, deitado em seu quarto, lhe restava a certeza de que, diante daquela solidão,
seus melhores amigos eram, de fato, sua cama, seu travesseiro, a escuridão e
sua mente. Por mais cheios de significados que fossem, havia sido o que lhe
restara. Afinal, naquela tarde, ao caminhar pelo parque central para buscar um
mínimo de sossego, só o que Ele vira tinham sido sorrisos – sorrisos de pessoas
alegres, sorrisos que contrastavam absurdamente com seu momento, sorrisos que o
faziam se lembrar daqueles casais felizes no restaurante, sorrisos que o faziam
se lembrar do sorriso desconfortável, dela, com que aquela noite havia se
iniciado.


