Por que sua chegada é dessa
forma, tão repentina? Será que, em vida, fazemos algo que a atinja e que nos
faça merecer sua aparição? Fazemos algo merecedor de sua despreocupação e que
como punição tenha sua presença? Ou será que, segundo seus conceitos e
concepções, quem vive de forma correta e honesta é seu principal alvo?
De tão acostumada que está a
deixar pessoas sujas e desonestas no mundo, você passa a considerar que são
elas quem deve permanecer? É isso? Ou será que está convencida de que, por a
maioria ser exatamente assim, aquela minoria, formada por seres direitos e exemplares,
deve ser extinta?
Por que uma esposa que antes
olhava para o lado na cama e ali via seu marido agora precisa bater de frente,
em todas as noites, com aquele espaço não-preenchido, tão vazio? Por que ela
tem de se ver obrigada a se deparar com tamanha sobra de travesseiro, lençol e
cobertores?
Por que um filho que diariamente
tomava café da manhã, almoçava e jantava com seu pai precisa olhar para aquela
cadeira e enxergá-la vazia? Onde está aquela voz firme e convicta que ecoava
pelos cômodos da casa? Quem a levou? Quem tem o direito de levá-la, tirá-la,
seja de quem for?
O dia 2 de outubro de 2009
deveria ter sido de festa nacional, por a cidade do Rio de Janeiro ter sido
escolhida a sede dos Jogos Olímpicos de 2016. Deveria. Bom, de fato, foi, para
a maioria da população. Mas não para várias pessoas ao meu redor. Sabe, olhar
para a tevê e assistir àquela festa, àquela aglomeração pulando, sorrindo, e,
em seguida, ter de olhar para o contraste, aquele pessoal cabisbaixo, atingido
da pior e mais traiçoeira forma possível.
Falo isso porque, no mesmo 2 de
outubro, vimo-nos obrigados a aceitar o falecimento de N.S., uma pessoa
extremamente próxima de minha família. Homem correto, trabalhador, exemplar,
pai de família. De apenas 53 anos, praticamente a metade do que uma vida pode
durar. Sim, infelizmente, sua vida foi interrompida pela metade. Infelizmente,
ele “vi”, não “viveu”. Mas temos o conforto de saber que, durante o tempo em
que ele “vi”, fez muito mais do que muita pessoa que “viveu”.
Deixa esposa, o filho L.S. e a
filha N.S., ambos com um pouco mais de 20 anos de idade. Três seres humanos
trabalhadores, que, junto a ele, formavam uma família unida, batalhadora e
vencedora. Agora, os três terão de seguir sem ele, mas tenho certeza de que a união
só vai aumentar e se tornar, ainda mais, a grande característica dessa família.
O legado e tudo o que ele ensinou jamais lhes serão subtraídos.
Mas ela, aquela à qual fiz
questionamentos no início do texto, é realmente devastadora. Como posso lhe transmitir,
leitor, o desespero da filha ao ver, no necrotério, pela primeira vez, o corpo
inerte do pai? Como posso transmitir uma voz falha, entupida, carregada, que
gritava, aos prantos, “Pai! Pai! Eu te amo, meu paizinho!”? Existe dor pior?
Existe situação pior com a qual se deparar? Quando perguntaram à filha se ela
preferiria já ir-se encaminhando ao velório, ela respondeu “Não, não, ficarei
aqui por o tempo que for preciso”. E, após, também aos prantos, ela exclama
“Por favor, depois me deixem dar um abraço no meu pai, um último abraço!”.
No velório, naturalmente, comoção
geral. O filho segurava uma foto dos quatro. Sabe, havia pessoas, até mesmo
familiares, que sozinhos, com seus próprios sentimentos, não estavam totalmente
inconsoláveis. Não sei no que estavam pensando; talvez, em algo distante,
talvez no futuro, mas essas pessoas conseguiam, encontrando forças, se conter.
Porém, quando vinha um outro alguém, chorando, consolá-los, lhes desejar força,
lhes oferecer os sentimentos de pesar, aí era imediato: os dois se uniam em um
só choro, em uma só tristeza, em uma só angústia. Passavam a compartilhar
emoções que as pessoas, de maneira nenhuma, gostariam de dividir naquele
momento. E o filho segurava uma foto dos quatro.
Indivíduos se aproximavam do
caixão. Os familiares não saíam dali de perto, e o filho segurava uma foto dos
quatro. Pessoas tocavam nas mãos, no rosto de N.S., não acreditando, e o filho
segurava uma foto dos quatro.
Pessoas, junto ao caixão,
balançavam a cabeça em desaprovação àquilo tudo, não se conformando com o que
se viam obrigadas a presenciar e a sentir. O filho segurava uma foto dos
quatro. Outras olhavam para aquele objeto de madeira, bem esculpido, brilhoso,
reluzente, mas que cuja beleza nada interessava, pois ele abrigava em si uma
vida, sonhos, sentimentos, o amor de familiares e amigos. Tal objeto tinha
dentro de si toda uma história de dedicação e companheirismo, uma história de
honestidade, uma história de doação ao próximo. Ali, naquele objeto que expunha
beleza e rodeado de flores, estava uma vida de preocupação com o bem-estar de
familiares e amigos. O filho ainda segurava uma foto dos quatro.
Mas fazer o quê, não é? Você sabe
que é implacável e que dita o ritmo de tudo aqui. Sabe que é implacável e até
penso, comigo, que você se aproveita disso. Sabe que, na maioria dos casos,
estamos sujeitos aos seus desejos. Mas por que essa agressividade, hein, Morte,
por quê? Por que dilacerar sonhos de forma tão repentina?
Sei que sua resposta não virá,
tampouco você mudará de atitude. Mas nós, aqui, na Terra, nos uniremos e
conseguiremos superar, nem que seja por uns instantes, todo o sofrimento que
você tem nos trazido. Temos certeza de que, juntos, somos mais fortes do que
você. Não vamos condicionar nossas vidas à expectativa que você tem de dar as
caras por aqui. Não. Chega.
O filho segurava uma foto dos
quatro. Em função do passar do tempo, ou de um ato involuntário, ela estava
rasgada na altura em que N.S. (pai) aparecia. O filho segurava uma foto dos
quatro. O filho segurava uma foto dos quatro.
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